
Foto: Geoff Robins/AFP
Robert Duvall, que ficou conhecido pelos papéis interpretados em filmes como "O Padrinho" e "Apocalypse Now", morreu aos 95 anos, avançou esta segunda-feira a mulher, Luciana. "Ontem [domingo], dissemos adeus ao meu amado marido, querido amigo e um dos maiores atores do seu tempo. O 'Bob' morreu pacificamente em casa, rodeado de amor e conforto", escreveu, sem ter sido revelada a causa da morte.
Robert Duvall partiu deixando para trás mais de seis décadas de uma carreira que ajudou a moldar o cinema norte-americano. Dono de uma presença serena e, ao mesmo tempo, avassaladora, foi um ator de silêncios densos, de olhares que diziam mais do que páginas inteiras de diálogo. A sua arte nunca foi exibicionista; era feita de contenção, de humanidade crua, de uma verdade que parecia brotar diretamente da experiência vivida.
Nascido no Texas, Duvall levou para o ecrã uma América profunda, rural e contraditória. Tornou-se inesquecível como Tom Hagen em "O Padrinho" (1972), o consigliere adotado pela família Corleone. Entre gabinetes sombrios e negociações sussurradas, Duvall construiu um homem dividido entre a lealdade familiar e a frieza estratégica. Numa das cenas mais marcantes, ao aconselhar Michael após a morte de Sonny, o seu rosto mantém-se quase imóvel, mas os olhos traem o peso moral das decisões que ajudam a redesenhar o destino da família.
Se em "O Padrinho" era a calma que dominava, em "Apocalypse Now" (1979) foi o fogo que o imortalizou. Como o tenente-coronel Bill Kilgore, surge de chapéu de cavalaria e óculos escuros no meio do caos do Vietname, comandando helicópteros ao som de Wagner. A célebre frase sobre "adorar o cheiro de napalm pela manhã" tornou-se um dos momentos mais icónicos da história do cinema. Nessa sequência, Duvall equilibra loucura e carisma, transformando um militar excêntrico numa figura quase mitológica - assustadora, mas estranhamente fascinante.
Em "Amor e Compaixão" (1983), papel que lhe valeu o Óscar de Melhor Ator, revelou outra face do seu talento. Interpretando um cantor country decadente que procura redenção, Duvall trocou o espetáculo pela introspeção. Há uma cena simples, num alpendre ao entardecer, em que canta baixinho enquanto observa o horizonte texano. Ali está concentrada a essência da sua arte: a capacidade de tornar o silêncio eloquente, de fazer da vulnerabilidade um gesto de coragem.

Robert Duvall em "Amor e Compaixão" (Foto: Direitos reservados)
Ao longo dos anos, brilhou ainda em obras como The Conversation, Lonesome Dove, The Great Santini e The Apostle, filme que também realizou. Neste último, ofereceu um retrato intenso de um pregador carismático e falível, misturando fé, culpa e paixão num desempenho quase febril. Duvall nunca temeu personagens moralmente ambíguos; pelo contrário, parecia procurá-los, como quem entende que a complexidade é o traço mais humano de todos.
Colegas e críticos reconheciam-lhe uma disciplina quase invisível. Não era um ator de gestos largos, mas de detalhes minuciosos: a forma de segurar um copo, o compasso da respiração antes de uma resposta, a pausa exata antes de um confronto. Cada escolha revelava estudo e instinto, técnica e sensibilidade.
Com a sua partida, o cinema perde uma das suas vozes mais autênticas. Ficam as imagens: o chapéu contra o sol ardente do Vietname, o fato escuro nos corredores da máfia nova-iorquina. Fica, sobretudo, a certeza de que Robert Duvall foi um intérprete raro, daqueles que não apenas representam personagens, mas lhes emprestam alma e, ao fazê-lo, ampliam a nossa compreensão do que significa ser humano.

