
Borges Coelho foi um dos mais importantes divulgadores da música portuguesa do nosso tempo.
Foto: Câmara Municipal de Murça
O maestro José Luís Borges Coelho, que se destacou na música e na vida académica e partidária, morreu este domingo, com 85 anos. Casa da Música destaca-o como "uma dessas raras pessoas que, no nosso tempo, representava o ideal do homem Renascentista". Funeral é na terça-feira de manhã.
"Um exemplo de humanismo, empenho cívico e generosidade" - foi assim que o Partido Comunista Português manifestou o "profundo pesar pelo falecimento de José Luís Borges Coelho, figura incontornável na cultura da região e do país". Resistente antifascista e militante comunista, Borges Coelho integrou a Direção da Organização Regional do Porto (DROP) e a Direção do Setor Intelectual do Porto do PCP.
"Na vida partidária, académica ou cívica, José Luís Borges Coelho destacou-se sempre pela sua dimensão humana, pelo empenho cívico, pela militância partidária e uma imensa generosidade que contagiava todos os que com ele conviviam. Com um profundo sentido de justiça social, é um obreiro de Abril, valores pelos quais foi um lutador incansável até ao fim da sua vida", destaca o PCP, em comunicado.
As cerimónias fúnebres realizam-se no Tanatório de Matosinhos, a partir das 16 horas de segunda-feira. O funeral está marcado para o dia seguinte, terça-feira, às 11.45 horas.
Também a Fundação Casa da Música manifesta o seu "profundo pesar pela morte do maestro José Luís Borges Coelho, elemento integrante de vários Conselhos de Administração da instituição e personalidade notável da vida musical e cultural do país".
"Deixou a sua influência, enquanto compositor, maestro, professor e divulgador, em milhares de pessoas, nos dois filhos que também são músicos de relevo, em tantos coralistas que hoje estão órfãos da sua presença insubstituível", diz o texto da Casa da Música.
"Artesão de vozes" que fazia "esculturas do som"
O maestro foi "uma dessas raras pessoas que, no nosso tempo, representava o ideal do homem Renascentista, conhecedor de mil ofícios, senhor de um pensamento transversal aos diferentes domínios do conhecimento e que concretizava em ações múltiplas de grande impacto social", destaca o texto da Casa da Música. "Falamos sobretudo de um músico, um artesão de vozes capaz de fazer esculturas do som, mas também de um pensador sobre o papel da educação na vida das pessoas e no ideal utópico de contribuirmos todos, em conjunto, para um mundo melhor".
"A Casa da Música teve o privilégio de contar com a sua presença e o seu pensamento estratégico em vários Conselhos de Administração - 2006/2008; 2008/2011; 2012/2014; 2018/2020 -, nos quais contribuiu de forma ativa e determinante para o desenvolvimento das políticas culturais e funcionais da instituição".
A Casa da Música salienta ainda "o seu exemplo enquanto fundador e maestro titular do Coral de Letras da Universidade do Porto e com o qual contribuiu em vários concertos na Casa da Música. Num local verdadeiramente inclusivo, onde todos eram convidados a participar, no Coral de Letras cultivou-se a arte de bem cantar, a generosidade de ensinar gratuitamente, de construir em conjunto um legado para partilhar com o grande público. José Luís Borges Coelho foi um dos mais importantes divulgadores da música portuguesa do nosso tempo", conclui.
Homem de muitos empenhos
Nascido em Murça em 1940, José Luís Borges Coelho licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e fez o Curso Superior de Canto do Conservatório de Música do Porto.
Desenvolveu um longo percurso como professor em diversas instituições, tendo sido presidente do Conselho Diretivo do Liceu Alexandre Herculano (Porto) e do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, assim como diretor pedagógico da Academia de Música de Viana do Castelo e da Cooperativa de Ensino Superior Artístico Árvore (Porto).
Presidiu também ao Conselho Científico da ESMAE - Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto. Foi fundador (1966), diretor artístico e maestro do Coral de Letras da Universidade do Porto (até 2023) e dirigiu também, entre outros, o Coro Misto Sacro de S. Tarcísio, o Orfeão do Porto, o Coro do Círculo Portuense de Ópera e o Ensemble Clepsidra.
Criou músicas originais para teatro (Teatro Experimental do Porto e da Seiva Trupe) e para cinema (em diversos filmes de Manoel de Oliveira).
Foi membro dos Conselhos Gerais da Culturporto, da Fundação para o Desenvolvimento Social do Porto, do Instituto Politécnico do Porto, do Conservatório de Música do Porto e da Cooperativa Árvore, integrou o Conselho de Administração da Sociedade Porto 2001 e da Fundação Casa da Música e foi sócio fundador do Sindicato dos Professores do Norte.
Foi distinguido com o Galardão de Mérito Associativo, pela Associação das Coletividades do Concelho do Porto, com a Medalha de Honra da Cidade do Porto e, em 2017, com o título Doutor Honoris Causa, pela Universidade do Porto.
Resistente antifascista e militante comunista, Borges Coelho fez parte de várias listas da APU e da CDU para a Assembleia da República e para as Autarquias Locais, tendo sido eleito na Assembleia Municipal de Murça (década de 80) e na Assembleia Municipal do Porto.
