
Instrumentistas da Banda Sinfónica Portuguesa juntaram-se a partir de suas casas
O desafio do maestro Francisco Ferreira era grande e inédito para a formação: juntar a mais de meia centena de instrumentistas da Banda Sinfónica Portuguesa (BSP), que fundou há 15 anos, no Porto, para voltarem a tocar unidos, mas afastados pelo recolhimento imposto pela pandemia.
Todos os músicos aderiram à iniciativa e juntaram-se, à distância, para voltarem a interpretar a peça "Shepherd"s Hey", de Percy Grainger, como tantas vezes já haviam feito, mas lado a lado. O resultado pode ser visto e ouvido num vídeo divulgado na página de Facebook da formação, que o quis "dedicar a todos os profissionais que trabalham na luta contra a pandemia e também aos artistas que se encontram em casa", adiantou ao JN o maestro e diretor artístico da banda, Francisco Ferreira.
"É uma obra que nos diz muito. Já a conhecíamos a fundo e já a interpretamos em alguns concertos: tocámo-la sempre que somos visitados pelo maestro inglês Douglas Bostock. É uma obra leve e alegre", apresenta o músico Marcelo Marques, que faz parte da fundação da BSP, a qual se viu obrigada a adiar a comemoração do aniversário, neste mês.
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Batimento rítmico guiou instrumentistas
Com o afastamento diluído pela tecnologia, os 54 músicos atuaram a partir das respetivas casas, orientados por um "batimento rítmico que todos tiveram de seguir", explica o maestro, que teve de "dirigir em seco", sem a orquestra. "Depois, foi necessário juntar as 53 pistas de áudio de cada um dos instrumentistas", descreve, lembrando o trabalho de edição realizado pelo técnico de som Paulo Constantino e por Ana Caldas, que tratou a imagem.
Marcelo Marques conta, a rir, que tocou saxofone no "quarto do filho, a uma hora decente", e fala numa experiência "diferente", mas "enriquecedora". "A diferença é gigante, a todos os níveis, quando tocamos em grupo. Desde a sonoridade, a adrenalina e a própria energia do concerto. Em palco, está ali tudo", diz.
"Não conseguimos ouvir o todo", corrobora Cláudia Carneiro, que a partir de casa tocou contrabaixo, o seu instrumento há 18 anos. Na banda há quase uma década, viu a iniciativa como "uma forma de matar saudades" e de "mostrar ao Ministério da Cultura que a Banda Sinfónica Portuguesa está cá".
"Temos muitas saudades de tocar uns com os outros; não há nada que pague isso", concorda Marcelo. O maestro Francisco Ferreira acrescentará que a gravação encurta também a distância do público: "Havia muita gente com saudades de ouvir-nos, e quisemos dizer que estamos todos bem de saúde e mostrar um pouco o nosso trabalho. Queremos que Portugal saiba que a Banda Sinfónica Portuguesa vai continuar a desenvolver a sua atividade".
