
O díptico "A Fera", uma versão hiper-realista do Marsupilami, está editado em português
Frank Pé faleceu este sábado, contava 69 anos. Das baleias pelas ruas em Bruxelas, à versão hiper-realista do Marsupilami, deixa-nos uma obra em que imperam os animais.
Corpo do artigo
Nascido a 15 de julho de 1956, em Ixelles,teve sempre o apoio da mãe, dona de casa e amante da arte, para se dedicar ao desenho e foi ela que lhe proporcionou as primeiras bandas desenhadas: o "Princípe Valente", de Hal Foster, "Tarzan", de Foster e Hogarth, "Tintin", de Hergé. Depois, seguiram-se a revista "Spirou", "Astérix" e "Tounga", este último o primeiro álbum que comprou com o seu dinheiro. Escolhido o futuro, frequentou durante três anos o Instituto Saint-Luc, em Bruxelas, contudo, acreditando que as artes visuais que lá se ensinavam não o ajudariam a fazer banda desenhada da forma que a concebia, deixou os estudos e começou a colaborar com a revista "Spirou", onde publicaria pela primeira vez em 1973.
Com a revista em plena mudança, foi colaborando irregularmente, até "Les baleines publiques", a primeira aventura longa de Brousaille, criada em parceria com o argumentista Bom, com a qual mostrou desde logo o que o motivava na BD: poesia e realismo, sonho e pequenos apontamentos de humor e, acima de tudo, a sua paixão pelos animais. Por isso, nesse álbum de estreia, as ruas da Bruxelas que tão bem conhecia são invadidas por baleias, raias, polvos e outros animais marinhos, enquanto imensos bandos de gaivotas cobrem os céus, numa história com muito de onírico e já a enorme sensibilidade que também o viria a caracterizar.
Brousaille
A intenção era inovar dentro das páginas da revista "Spirou", sem qualquer intenção de afastar os leitores infanto-juvenis a que primeiramente se dirigia. Nesse processo, teve a companhia de amigos e autores talentosos como Bom, Geerts, Hislaire, Tome, Janry, Berthet, Yann, Conrad (atual desenhador de Astérix), Dodier ou Makyo.
Para lá dos 5 álbuns de Broussaille, na sua bibliografia encontra-se a série "Zoo", escrita por Bonifay, um Spirou 'de autor', "La lumière de Bornéo", com Zidrou, e uma versão muito pessoal do "Little Nemo", de Winsor Mccay. todas elas marcadas profundamente por uma enorme delicadeza, visuais magníficos e a transposição para o papel do seu dom de desenhar animais, em estilos que podiam assumir o máximo realismo ou representações mais caricaturais e fantasiosas, explorando um enorme leque de técnicas e efeitos que lhes conferem atmosferas únicas.
Em final de carreira, possivelmente sem que soubesse que ela terminaria assim, legou-nos o díptico "A Fera", que tem edição portuguesa da cooperativa editorial A Seita. Escrito por Zidrou, este relato coloca uma versão assustadoramente realista do Marsupilami numa Bélgica pós-Segunda Guerra Mundial, com todos os fantasmas que então a assombravam. A amizade entre um menino e 'a fera' irá proporcionar uma belíssima história que saltita facilmente entre o tom mais negro e depressivo que espelha o pior do ser humano e a imensa ternura de um menino pelos animais.
Convidado do Amadora BD em 2022, Frank Pé revelou-se um bom conversador, afável e apaixonado pela sua arte, tendo presentado inúmeros leitores com surpreendentes autógrafos que combinavam desenho e colagem de elementos naturais como folhas e pequenos raminhos.
Desenhador muito exigente, soube sempre adaptar-se às histórias dos argumentistas com quem trabalhava, embora trazendo sempre consigo a sua paixão pelos animais e a sua enorme sede de liberdade, que inclusive o levou a experimentar outros suportes como a animação, murais, esculturas...
À data da sua morte, Frank estaria a trabalhar num terceiro volume de "A Fera", de novo com argumento de Zidrou e passado na Viena do início do século XX, onde, num Império Austro-Húngaro em declínio, encontramos Gustav Klimt, Egon Schiele, Sigmund Freud... e um Marsupilami!

