
"Lado bom" é o quinto álbum de Rita Redshoes
Vitorino Coragem
"Lado bom" é o quinto álbum da cantora, que anotou o "processo mágico e doloroso" da gravidez. Canções do disco são "terapêuticas" e foram escritas antes da pandemia.
"Só se chega ao lado bom conhecendo o lado mau. Precisamos da comparação para arrumar as coisas e perceber as diferenças. Não se sai ileso do lado mau, de uma depressão, mas adquirimos ferramentas que permitem valorizar o que somos e o que temos". A alegria bacoca ou a felicidade conquistada, por vezes, "à custa de horrores". Eis a mulher que saiu mais sábia e completa da gravidez. Rita Redshoes registou o processo, "mágico e doloroso", em o "Lado bom", o quinto disco de originais e o mais pessoal de toda a carreira.
Tudo aconteceu antes da pandemia - a gravidez, a escrita das canções -, e Rita não sabe como seria o "lado bom" se tudo se passasse durante o dilúvio. Teve a sorte de o atravessar com uma bebé ao colo. "Escrever canções sempre foi, para mim, um processo terapêutico, uma forma de me arrumar. Mas agora vivi uma transformação brutal, do ponto de vista físico e interior. E as canções são uma espécie de diário de bordo - está tudo em carne viva, cheguei a escrever enquanto fazia piscinas com a bebé em casa. Vivia os momentos e registava-os. Queria apanhar aquele espanto de gerar um ser, que se torna a nossa maior força e também a nossa maior fraqueza".
luz e depressão
A cantora descreve o som do disco como "aquático", talvez porque tudo tenha sido um "mergulho profundo", onde "regressou à infância" e visitou "lugares novos" e revisitou outros "com uma perspetiva renovada". Uma jornada de "autodescoberta" que a fez emergir com uma "visão mais límpida". Rita fala de duas metades no disco. Um primeiro mergulho entre "Lado B" e "Amor intermitente", uma pausa para ganhar fôlego em "Ocytocine", tema instrumental de 20 segundos dominado pela harpa de Eduardo Raon (curiosamente, o novo disco de Billie Eilish inclui um tema com o mesmo nome - oxitocina é uma hormona de prazer associada à gravidez), e um novo mergulho para a "valsa" com Camané em "Contigo é para perder", onde se equilibra, nas palavras da cantora, o "lado luminoso da gravidez e o lado pesado, o da depressão pós-parto, e o Camané foi o elo perfeito para construir esta ponte", continuando debaixo de água até à "Canção canora", feita com palavras de Samuel Úria.
Riqueza e complexidade nos arranjos, eletrónica e acústica em doses justas e harmoniosas, palavras de felicidade e deslumbramento. Um universo quase infantil - mas não de infantilização, antes um apelo à capacidade para nos maravilharmos. Algo que Rita vem explorando também nos seus livros para crianças. "Um bom conto infantil é algo extremamente complexo e depende do equilíbrio entre mostrar o fascínio pela vida e o que poderá estar por trás dele." Novas histórias estão "na manga", porque a cantora funciona como "Lado bom": a seguir ao mergulho é necessária uma pausa. "Não estou sempre a compor. Preciso de absorver novas histórias, através de imagens, daquilo que observo". Um reabastecimento de vida que não implica suspendê-la. Durante os confinamentos a cantora estudou, fez um podcast ("Sonhos de pessoas quase normais"), um programa de rádio ("PlimKaPum") e ofereceu à sua vizinhança em São Julião do Tojal pequenos concertos de quintal, onde esteve acompanhada pelo marido, o guitarrista Bruno Santos, e pelo saxofone de Ricardo Toscano. Descobriu, também, que "como mãe sou uma melhor versão de mim mesma."
