
Companhia de Dança do Seixal compõe elenco da peça "A coleção do meu pai - Amina"
Coreógrafa Cláudia Dias está de regresso com o segundo capítulo do projeto "A coleção do meu pai". Espetáculo de dança sobe ao palco do Teatro Constantino Nery, em Matosinhos, no sábado.
Cláudia Dias continua a construir um arquivo sensível do presente, depois do seu megaprojeto "Sete anos, sete peças", no qual se recusou a pactuar com a efemeridade das artes performativas e do sistema.
"A coleção do meu pai - Amina" é o segundo capítulo de um ciclo que se estende no tempo, recusando o consumo rápido. A peça nasce da obra literária "Cerromaior", de Manuel da Fonseca, para imaginar uma cidade possível - ou melhor, inevitável -, feita de fricções, silêncios e urgências da Margem Sul contemporânea.
O dispositivo cénico organiza-se como um conjunto de jogos: entre palavra e batida, entre corpo e objeto, entre ironia e cansaço. O que emerge não é um retrato sociológico, mas uma vibração coletiva. Cada gesto parece carregado de experiência acumulada; cada frase traz consigo uma história que não cabe no palco, mas que insiste em atravessá-lo.
Há uma ética da escuta no modo como o processo integra uma equipa intergeracional e intercultural - o elenco é composto pela Companhia de Dança do Seixal -, fruto de uma antecâmara de investigação e de práticas de dança comunitária que não são um mero ornamento, mas estrutura.
As referências convocadas, da contundência alegórica de "A mesa verde", de Kurt Jooss, ao jogo narrativo, funcionam menos como citações do que como camadas de tempo sobrepostas. A peça constrói assim um arco entre o colapso do século XX e o esgotamento do presente, sugerindo que continuamos sentados à mesma mesa, mas com menos ilusões.
O trabalho dialoga com a trajetória anterior de Cláudia Dias, marcada por uma atenção persistente ao corpo como território político e ao palco como espaço de negociação coletiva.
Tal como em projetos anteriores, há aqui uma recusa do conforto e do consenso, por vezes mordaz, deliberadamente fora do "politicamente correto". Mas é nessa fratura que encontra a sua força.

