
"Contos completos" de Julio Cortazar
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Contos de Julio Cortázar são uma arma sempre eficaz contra a lógica e o bom-senso.
Tantos anos depois, é ainda com assombro que se leem as intrépidas investidas ficcionais de Julio Cortázar, nome central da literatura sul-americana do século XX. Numa época em que demasiados escritores perseguem o real e a verdade com laivos obsessivos, quais roedores no encalço da própria cauda, é espantoso verificar como Cortázar, seguindo caminhos opostos, atingiu resultados bem mais notórios nesses campos.
Associado de forma quase instantânea, e por vezes apressada, aos territórios do onírico, do surrealismo e até do non-sense, o mestre argentino conseguiu, ainda assim, soar mais verosímil nas suas prosas habitadas pelo fantástico do que os supostos perscrutadores do real que por aí abundam. Por um motivo simples: nos textos do autor de "O jogo do mundo", a realidade e o sonho não se encontravam em compartimentos estanques, interagiam com frequência. E era mesmo essa interseção entre dois mundos que nos habituámos a ver em separado a mola criadora para os seus textos mais inspirados.
Enquanto se aguarda pela publicação do segundo tomo, programada para este ano, a publicação do primeiro volume dos contos completos de Julio Cortázar, correspondente aos anos entre 1945 e 1966, proporciona-nos vasto material de reencontros, confirmações e até descobertas, tão ampla a quantidade de narrativas aqui incluídas.
"É curioso que as pessoas pensem que fazer uma cama é exatamente o mesmo que fazer uma cama, que dar a mão é sempre o mesmo que dar a mão, que abrir uma lata de sardinhas é abrir até ao infinito a mesma lata de sardinhas. Pelo contrário, tudo é excecional...", escreve o autor no início de um dos seus notáveis contos, "As armas secretas", que é também um autêntico manifesto de uma obra sempre interessada em subverter a realidade através da linguagem.
Crítico acérrimo do normativismo dominante na sociedade, dedicou muitos dos seus textos (de que é exemplo maior o impagável "Instruções para subir uma escada") a demolir essas visões tecnocratas do quotidiano, em tudo opostas à sua própria conceção poética e sonhadora.
De fôlego desigual, estes contos oferecem sempre um vislumbre de perplexidade que nunca deveríamos renegar; são, em suma, uma arma sempre eficaz contra a lógica e o bom-senso, tantas vezes inimigos do sonho.
"Contos completos 1 (1945-1966)"
Julio Cortázar
Cavalo de Ferro

