
Uma rainha enlouquecida (Emília Silvestre) vive o estertor do reinado num palácio degradado em "O fim"
Foto: José Caldeira
Carlos Pimenta encena "O fim", de António Patrício, no Teatro Nacional S. João, no Porto, até 22 de fevereiro.
Escrito entre o regicídio de 1908 e a implantação da República, em 1910, "O fim" assinala a estreia de António Patrício (1878-1930) na dramaturgia e faz eco desse momento de rutura entre duas ordens. Reverberação que chega à atualidade na perspetiva de Carlos Pimenta, que encena o espetáculo para o Ensemble - Sociedade de Atores.
O discurso recente de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, ilustra esse paralelo com o conteúdo da peça: "Identifica o fim da ordem liberal saída do pós-guerra e a transição para uma outra ordem que ainda ninguém sabe qual é", diz Pimenta. No texto de Patrício, um drama estático em dois quadros de tom simbolista e decadentista, há também um Mundo que colapsa, sendo uma incógnita aquele que se segue.
Uma rainha enlouquecida (Emília Silvestre) vive o estertor do reinado num palácio degradado onde sobrevive uma pequena corte e alguns criados. Há a iminência de uma invasão estrangeira e a monarca interroga-se: "Vivemos então os últimos dias de um povo?".
A rigorosa descrição do espaço contida nas didascálias choca com a ideia cenográfica, também da autoria de Pimenta, com proveito teatral: vemos um espaço metálico, frio e minimalista disponível para ser completado pela imaginação do espectador. Um lugar deliberadamente deixado à subjetividade, diz o encenador.
Como peça estática, devedora de autores como Maeterlinck, "O fim" substitui a ação dialógica pelos monólogos narrativos - essencialmente o da rainha, no primeiro quadro, e o do Desconhecido (António Durães) no segundo.
A densidade do texto cria, porém, alguns obstáculos à ideia de contemplação defendida por Pimenta e força a um estilo excessivamente declamatório por parte dos atores. O tempo é espacializado no drama estático, mas o caudal de palavras (narrativas) parece enfraquecer a desejada tensão face à iminente catástrofe. Fica mais uma reflexão à posteriori do que uma vivência efetivamente dramática.
"O fim"
Teatro Nacional S. João, Porto
Até 22 de fevereiro.
Horários: 19 horas (quartas, quintas e sábados), 21 horas (sextas-feiras) e 16 horas (domingos). Duração: 80 minutos.
Preço: 10 a 16 euros.
