
Rui Oliveira/Global Imagens
Coliseu encheu para ver Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown pela primeira vez juntos em palco na Invicta.
Perto de três mil pessoas assistiram, esta terça-feira à noite, à passagem dos Tribalistas pelo Coliseu do Porto. Na sala lotada, que começou sentada e terminou em pé, o grupo formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown encontrou a mais íntima audiência da digressão iniciada em julho, no Brasil, a primeira do trio desde o estrondoso sucesso de vendas alcançado em 2002.
O recinto, bem mais pequeno que os estádios e arenas por onde até agora a tribo desfilou a "Carnavália" - tema que nos sugere que se o Brasil fosse uma obra, seria uma canção -, obrigou a uma adaptação do cenário.
O belíssimo espetáculo visual desenhado por Batman Zavareze (responsável pelas projeções da cerimónia de encerramento dos Jogos do Rio em 2016) encolheu no Porto. Em vez de três telas em palco, houve só uma, colocada ao centro, em forma de losango.
Mas não se perdeu a essência do trabalho criado para sublimar o ritmo, a letra, a cor das canções e, sobretudo, para lhes dar profundidade, com notável efeito em temas como "Velha Infância" - que resultou na primeira grande ovação da noite.
Se o cenário foi adaptado, o alinhamento não sofreu qualquer desvio. O Coliseu ouviu e trauteou boa parte dos 27 temas que os artistas escalaram para o espetáculo, a que acrescentaram dois encores no final. "Velha Infância" havia de regressar para gáudio do público, acompanhada de "Tribalistas", a canção-manifesto que melhor corporiza o código de valores da tribo, e que abriu e fechou o círculo de canções.
Pelo meio, o público foi seguindo com devoção o ritmo do concerto, ora mais contemplativo - "É Você", "Carnalismo", "Lá de Longe" -, ora mais político - em "Diáspora", "Lutar e Vencer" - ora mais elétrico, já na fase final, com o povo em definitivo fora das cadeiras para dar o corpo à dança em "Passe em Casa" e "Já Sei Namorar".
Os temas foram retirados dos dois álbuns da banda e da verdadeira piscina olímpica de composições que "Arnaldo, Carlinhos e Zé" criaram em conjunto nas últimas décadas - 56 temas a três, muitos mais em dupla -, num trabalho que começou com "Água também é Mar", incluído no alinhamento.
Acompanhados por Pedro Baby (violão e guitarra), Marcelo Costa (bateria), Pretinho da Serrinha (percussão, cavaquinho e guitarra) e Dadi Carvalho (baixo, guitarra, teclados), os Tribalistas acarinharam o público do Porto com palavras de gratidão e um apelo de união. "Somos todos Tribalistas", repetiu por mais do que uma vez Carlinhos Brown, o baiano que mais contagiou a plateia.
Ao longo de duas horas de espetáculo, a banda fez a assistência deliciar-se pelo parque de diversões que é o terreno onde lavram as suas canções, feitas de letras que são, em si, melodias - "Vilarejo" é só um exemplo - tocadas a samba, bossa nova, um rock ligeirinho e outras tantas matizes típicas da Música Popular Brasileira.
Num tempo que dizem impróprio para ingénuos, os Tribalistas continuam a vender esperança no lugar do medo, a municiar a festa com afeto, a fazer perdurar uma memória de infância - deles, nossa - onde as saudades são do futuro. Amanhã pode sempre ser melhor.
