
"A fidelidade à partitura é largamente exagerada na música clássica", diz o compositor e intérprete Lucas Debargue.
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Compositor francês de 35 anos atua este domingo na Casa da Música, no Porto: "É difícil acreditar que se possa ser intérprete sem compor", confessa ao JN.
Dono de uma visão artística singular e de uma liberdade criativa pouco comum, o pianista francês Lucas Debargue apresenta-se hoje na Casa da Música (18 horas) com um recital que atravessa 50 anos de profundas transformações na história da música. O programa estabelece pontes entre Liszt, Scriabin e Ravel, num percurso que, mais do que cronológico, reflete afinidades estéticas e espirituais.
A primeira parte é inteiramente dedicada a Franz Liszt, compositor central do recital. Depois da "Balada n.º 2", inspirada no mito trágico de Hero e Leandro, Debargue interpreta duas das mais ambiciosas obras lisztianas para piano solo, verdadeiros poemas sinfónicos.
"Fiquei feliz por juntar estas peças no mesmo programa porque há semelhanças e diferenças suficientes para o tornar intrigante para o ouvinte", diz o pianista de 35 anos.
A ideia de diálogo estende-se à segunda parte do concerto, onde surgem Alexander Scriabin e Maurice Ravel. Scriabin está representado pela "Sonata n.º 3", enquanto Ravel surge com "Jeux d"eau", obra que assume claramente essa herança.
"Ambas têm três peças, com um "Jeu d"eaux" no meio: o primeiro de Liszt e o segundo de Ravel, obviamente muito inspirado no primeiro", sublinha Debargue. Já a "Sonatine", de Ravel, e a "Sonata n.º 3", de Scriabin, compostas quase na mesma época e na mesma tonalidade, têm ambição comum: "Colocar numa forma curta e compacta uma sonata cíclica, profunda e ambiciosa".
Intensamente pessoal
Conhecido por interpretações vigorosamente pessoais, Debargue questiona a noção tradicional de fidelidade absoluta à partitura. "A fidelidade à partitura é largamente exagerada na música clássica", afirma. Para o pianista, tocar exatamente o que está escrito não é o mais difícil nem o mais importante: "O que mais me importa é o espírito da música escrita na partitura e o seu significado".
As regras, diz, pertencem à linguagem musical, não a cânones criados muito depois da morte dos compositores. "É impossível cantar ou falar sem a nossa própria voz humana. Cada ser humano reage de forma diferente ao mesmo texto musical".
Nietzsche no piano de Scriabin
O seu percurso não é convencional. Começou a estudar piano aos 11 anos, idade que não rotula como tardia. "Não há cedo ou tarde quando se trata de encontrar a música. Trata-se do momento certo e do lugar certo".
O pianista critica a disciplina excessiva imposta a muitas crianças e valoriza o caráter espontâneo do seu próprio encontro com a música: "Estou muito feliz por a minha vida ter mudado graças a um encontro pessoal e por ter sido eu a decidir".
Debargue é também compositor, o que é inseparável do ato de tocar. "É difícil acreditar que se possa ser intérprete sem compor". A imaginação é um elemento central da interpretação - e é continuamente alimentada por outras artes. "Qualquer forma de arte influencia-me constantemente", diz, admitindo associações recorrentes: "Relaciono sempre "Gaspard de la nuit" com as obras tardias e sombrias de Goya, e encontro muito de Nietzsche nas peças para piano de Scriabin".

