
No grupo de "10 to Watch" está a realizadora Anna Cazenave Cambet
Foto: Sarah Makharine
O JN esteve no encontro da Unifrance com os novos rostos do cinema gaulês.
A indústria do cinema francês é a mais importante da Europa e uma das mais fortes de todo o mundo, apenas suplantada por Hollywood e Bollywood - expressão que aliás representa apenas a parte mais popular do cinema indiano.
Uma das instituições públicas de maior relevo no tecido do cinema francês é a Unifrance, que tem como missão promover o cinema francês além-fronteiras. O organismo depende do CNC, o "Centre National du Cinéma et de l"Image Animée", que grande parte do setor cultural em França teme ver reduzidas as saus funções e as suas linhas de financiamento caso a extrema-direita lepenista vença as eleições presidenciais de 2027.
Entre muitas outras iniciativas, entre as quais a participação na Festa do Cinema Francês em várias cidades portuguesas, a Unifrance organiza no início de cada ano os Encontros do Cinema Francês. Ao longo de quatro dias, e após visionarem os filmes, um grupo de jornalistas estrangeiros, entre os quais o JN tem marcado presença regular, tem a possibilidade de conversar com atores, atrizes, realizadores e realizadoras dos filmes que vão chegar nos próximos meses às salas de cada país.
Nos últimos anos, a Unifrance tem apresentado durante esses encontros o dispositivo "10 to Watch", uma lista de rostos que se têm destacado nas últimas temporadas e que garantem o futuro do cinema francês.
Comecemos por aqueles que já conhecemos entre nós. Ugo Benvenu é o jovem realizador da animação "Arco", que já se encontra nas salas de cinema em Portugal. O filme, uma viagem no tempo de um menino de dez anos que vem do futuro e aterra em 2075, acaba de ser nomeado para o Óscar de melhor longa de animação, depois de ter vencido vários outros prémios, entre os quais os da Academia de Cinema Europeia, na mesma categoria.
Também já estreado em Portugal, podendo ainda ser visto em várias salas do país, "Nouvelle Vague", de Richard Linklater, reconstituição precisa da rodagem de "A Bout de Souffle", de Jean-Luc Godard, corresponde à estreia como ator de Guillaume Marbeck, precisamente no papel do icónico realizador. Estudante de cinema, Marbeck já realizou uma curta-metragem, tem-se dedicado à fotografia e será visto em breve em "Couture", de Alice Winocour, ao lado de Angelina Jolie e Louis Garrel.
Com distribuição em Portugal, mas ainda sem data de estreia, "Nino", da realizadora Pauline Loquês, centra-se num jovem que deambula por Paris, na tentativa de se reconciliar com o mundo e consigo próprio após lhe ter sido diagnosticado um cancro. O filme, que foi revelado na prestigiada Semana da Crítica de Cannes, tem como protagonista Théodore Pellerin, já com carreira no Québec natal, nos Estados Unidos e em França, em filmes e séries de televisão, como "Becoming Karl Lagerfeld", da Disney+. Em breve, iremos ver o ator ao lado de Marion Cottilard, em "Milo", de Nicole Garcia.
Infeliz e inexplicavelmente sem estreia entre nós, "Le Rendez-Vous de l"Été" passava-se durante os Jogos Olímpicos de Paris de 2024 e acompanhava uma jovem que chegava à cidade na tentativa de assistir às provas de natação. O filme, estreado em Berlim o ano passado e vencedor entre outros do prestigiado Prix Louis Delluc, assinalou a estreia na realização de longas-metragens de Valentine Cadic.
O grupo de "10 to Watch" inclui também Salif Cissé, que representará a França dentro de algumas semanas nos Shooting Stars, dispositivo da European Film Promotion, a realizar durante o Festival de Berlim. O ator tem já alguns filmes e séries em carteira, entre os quais o mais recente "Meteors", de Hubert Charuel, estreado na secção Un Certain Regard de Cannes, e encontra-se a escrever a sua primeira longa-metragem como realizador.
Já com uma longa carreira atrás de si, mas ainda pouco conhecido fora de Granla, Thomas Ngijol começou pela comédia stand-up, no famoso James Comedy Club e é hoje, além de ator, um reconhecido argumentista e realizador. O seu último trabalho nessas áreas, "Indomptables", estreado na exclusiva Quinzena de Cineastas de Cannes, foi inteiramente rodado nos Camarões, de onde a sua família é originária.
Um dos filmes mais falados dos últimos meses em França, e que seria lastimoso não vermos entre nós, "Des Preuves d"Amour" é um relato autobiográfico da realizadora Alice Douard. O filme segue uma jovem na casa dos trinta anos que espera o seu primeiro filho. Mas não é ela que está grávida, é a sua companheira que irá dar à luz em três meses. A realizadora, fruto da parisiense FEMIS (a antiga IDHEC), uma das escolas de cinema mais prestigiadas do mundo, já assinara uma série de curtas, uma das quais, "L"Attente", já abordava a mesma história e venceria o César na categoria.
Protagonista precisamente de "Des Preuves d"Amour", Ella Rumpf é suiça mas tem feito carreira sobretudo no cinema francês, onde foi revelada ao lado da protagonista de "Grave", a longa-metragem de Julia Ducournau que antecedeu "Titane", vencedor da Palma de Ouro de Cannes. A atriz não mais parou e o papel principal de "O Teorema de Marguerite", fascinante ligação entre cinema e matemática que pudemos ver entre nós, valeu-lhe o César para melhor revelação feminina. Além do filme de Alice Douard, a atriz poderá ser vista em breve em "Couture", sobre o mundo da moda, "Novak", de Harry Lagoussis e "Jupiter", de Alexandre Smia.
Nascida em Seoul e radicada em Paris, Park Ji-Min é de base uma artista visual, mas o filme "Retour a Seoul", inspirado na sua própria experiência e onde é atriz principal lançou-a nessa carreira. De tal forma que Cannes 2025 viu-a nada menos do que em três filmes, "Vida Privada", de Rebecca Zlotowsky, que já estreou entre nós, "La Petite Dernière", de Hafsia Herzi, exibido em competição e onde era o segundo nome do cartaz, ao lado de Nadia Melliti, que venceria aliás o prémio de interpretação feminina, e ainda o muito celebrado "Love Me Tender".
Este último filme é realizado por Anna Cazenave Cambet, mais um produto da FEMIS. Depois de algumas curtas-metragens, já se estreara no formato da longa, com "De l"Or pour les Chiens", estreado na Semana da Crítica de Cannes. Com "Love Me Tender", que se espera vir a ser estreado em Portugal, a realizadora dá o papel principal a Vicky Krieps, na figura de uma advogada que abandona o marido para procurar a sua verdadeira felicidade, vendo-se envolvida numa disputa pela custódia do filho.
E foi a realizadora que, no encontro informal da imprensa com os 10 to Watch, explicou ao JN qual a importância de ter sido escolhida para este programa. "É a possibilidade de mostrar o filme noutros lugares, de dar outra vida ao filme em países onde viajamos com ele", diz-nos. ". Para mim é muito interessante mostrá-lo em França e ter o retorno dos espectadores franceses. Mas nos últimos meses estive em Los Angeles, em São Paulo, em Montreal e também na Europa. É interessante ver, de cada vez, o que é semelhante em todo o lado e o que é diferente."
O filme segue a linha do trabalho da realizadora, onde relatos da homossexualidade feminina têm a primazia. "A minha primeira curta-metragem ainda é pedida para ser enviada para todo o mundo, incluindo países onde a homossexualidade ainda é ilegal. E é uma alegria imensa que esse filme possa tocar pessoas na China, na Rússia. Essa é a força de um filme", sublinhou.
Quanto às questões legais que "Love Me Tender" coloca, a realizadora dá alguns exemplos. "No Quebec as pessoas ficaram furiosas contra o sistema judicial francês. Não o compreendem. E falei muito com a comunidade queer no Brasil, porque há outros fatores em jogo, como a religião. É uma sociedade ao mesmo tempo conservadora e aberta. É outra forma de posicionamento."
