
Teatro da Palmilha Dentada passa em revista a pandemia
João Tuna
"Assim se fazem as coisas: Monumental revista antipopularuxos", em cena no Porto.
Cabelo repenteado, camisola- branca-bate-na-mulher, fato de treino de tactel, ombros e barriga para fora e peito para dentro, migalhas várias cuspidas da boca. Assim se abre uma produção em que tudo, avisamos para que ninguém vá ao engano, "é uma bergonha".
"Assim se fazem as coisas", frase roubada pelo encenador Ricardo Alves ao pai do teatro português, Gil Vicente, dá o mote para uma "monumental revista antipopularuxos", em cena até 5 de junho, no Teatro Carlos Alberto, no Porto. As três primeiras récitas decorrem no âmbito do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI).
Num exercício de autocrítica, Ricardo Alves, diretor do Teatro da Palmilha Dentada, diz ter entendido que sofria de um mal de pedantismo teatral e que apesar de odiar as escadarias, plumas e lantejoulas do teatro de revista, viveu a sua carreira a fazer uma variante a que chama de "café-teatro". Fazendo então as pazes com o seu demónio, e a convite do Teatro Nacional São João, decide cumprir a lista dos essenciais para uma revista: os telões, a escadaria central, o corpo de baile e, claro, a figura do compère que atua entre atos para os demais mudarem de roupa.
Neste caso há um interessante interlúdio em que se situa historicamente a revista à moda do Porto e a revista à portuguesa. A primeira teve a época aurea no mesmíssimo teatro Carlos Alberto, ainda durante a Primeira República. (A exposição "O palco e a cidade, teatro do Porto 1850-1950", de Gonçalo Vilas-Boas, na Casa do Infante, Porto, em 2016, trazia já importante material sobre este tema). Há um grande aparato de efeitos, musiquinhas que se alojam no ouvido, as palmas, dancinhas, sotaques e dicções forçadas, os clichés, bandeiras do F.C. Porto e afins. Mas no meio saem disparadas as farpas, esse cerne da revista, a crítica social abafada no meio das gargalhadas. Desta feita numa versão moderna sobre o que foram os últimos dois anos na vida deste país democrático, onde a realidade superou a ficção.
Ricardo Alves fala o idioma do sarcasmo a nível nativo. O embrulho pode ser o que ele quiser: revista, café-teatro, para pedantes e intelectuais ou clássicos, ele e a sua trupe podem com tudo.
Assim se fazem as coisas
Teatro Carlos Alberto (Porto)
Até 5 de junho

