
John Turturro é Harry em "The Only Living Pickpocket in New York"
Foto: Direitos Reservados
"Moscas", de Fernando Eimbcke, juntou qualidade à competição da Berlinale.
Há uma "má" notícia para quem só vem ao Festival de Berlim durante os primeiros dias. É que depois de um fim de semana dececionante em relação à qualidade média dos filmes a competir pelo Urso de Ouro, parece que os programadores do festival guardaram propositadamente para a parte final os títulos mais interessantes.
É o caso de "Moscas", do realizador mexicano Fernando Eimbcke, já conhecido do circuito de festivais e já com obras estreadas em Portugal, sobretudo "Temporada de Patos", um dos seus títuos mais conhecidos. Aqui, são as moscas as protagonistas. Ou melhor, uma mosca irritante que não deixa dormir a protagonista do filme, uma mulher que vive sozinha num prédio de habitação social.
Olga, assim se chama a personagem, tenta tudo para se livrar da mosca, acabando por abrir a janela, deixando entrar o ar poluído da cidade. E o prédio vai tornando-se também uma das personagens da história. Olga precisa de dinheiro para uma pequena intervenção cirúrgica num pé devido a uma infeção, e aluga um quarto vago a um homem, que precisa de um lugar para dormir com o filho, porque está na cidade para acompanhar a mulher, que está num hospital com uma doença grave.
Contado assim, o filme de Eimbcke poderia incluir-se na linha do realismo social tão em voga nos dias de hoje, mas a sua abordagem está nos antípodas do miserabilismo, falando-nos destas pessoas invisíveis, os "esquecidos" da sociedade mexicana, fazendo-nos lembrar, apesar das diferenças estilísticas, em "Los Olvidados", a primeira obra-prima do exílio mexicano de Luis Buñuel.
O filme gira em torno do dinheiro, sobretudo a falta dele, o que percebemos quando, de cada vez que as personagens vão à farmácia, têm de deixar para trás uma parte das receitas. Como nos disse o realizador em conversa sobre o filme, a saúde não pode ser um negócio. Infelizmente, ainda é.
Na outra secção competitiva do festival, Perspectives, vocacionada para obras de jovens cineastas, o filme de estreia da macedónia Kosara Mitic, "17", foi muito bem recebida pelo público que enchia a sala, como acontece quase sempre na Berlinale, e que não lhe poupou uma calorosa e instintiva salva de palmas. O título diz respeito à idade da protagonista, Sara, que está de partida com colegas e professores para uma viagem de fim de liceu à Grécia. Mas Sara esconde um segredo, que lhe vai custar a decisão mais difícil da sua vida.
Entretanto, as chamadas Galas Especiais da Berlinale também continuam, e se por vezes as suas propostas não são das mais estimulantes, não foi o que se passou com "The Only Living Pickpocket in New York", de Noah Segan. John Turturro é Harry, um carteirista veterano, com a sua ética e bons contactos com um velho chefe da polícia e que tem de tomar conta da esposa, que está em estado de coma.
A infelicidade de Harry é que um dia, ao despejar em cima do balcão do seu recetador habitual o fruto de um dia de "trabalho", descobre uma pen drive que fora roubada a um jovem, que pertence a uma família ligada à alta finança, o que desencadeia uma série de estranhos acontecimentos.
Mas a mensagem do filme de Noah Segan é a de que "ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão". O filme é um produto típico do cinema independente nova-iorquino, com um sempre notável John Turturro a ser secundado por gente como Giancarlo Esposito ou Steve Buscemi. Um bom divertimento, sobre o lado menos turístico da cidade que nunca dorme.
