
O Universo num computador: Kayla Painter
Foto: DR
A música ambient e granular de Kayla Painter atinge um patamar fascinante em "Tectonic particles"
Kayla Painter é uma artista, produtora e docente universitária britânica, com algumas raízes em Fiji. Já leva mais de uma década plural na música eletrónica - tanto abriu um espetáculo de Carl Cox e fez peças dançáveis como a sonhadora "Balloons in the sky", de 2022, como pratica mergulhos em profundidade na abstração e numa espécie de contemplação. Inclina-se para performances audiovisuais imersivas, em que a faceta não sonora costuma estar a cargo de Jason Baker.
É sobretudo de territórios abstratos que vem "Tectonic particles", que Painter diz focar-se "nos pequenos processos que produzem diferenças gigantescas no Universo". Em tom dominante ambient, o álbum explora o potencial criativo das gravações de campo, dos sons de quotidianos. As origens são incertas e empregues com discrição, moldadas digitalmente, com uma qualidade granular, como que observadas através de uma poderosa lupa sónica. Umas vezes vertidas em composições evocativas e com um corpo familiar ("Forest floor"; a batida que assoma em "Anicca", transportando o ouvinte para um território de espiritualidade - o título do tema é um conceito budista ligado à constante mutação de todos os elementos que compõe o universo). Outras vezes funcionando como saltos para um desconhecido de formas fluidas (a gotejante "All things as a whole"; a cavernosa "Pure white stalactite"; os rumores e o saxofone morfinómano enterrados em "Lesu mai", expressão fijiana que remete para uma ideia de regresso a uma condição ou lugar anteriores).
"Tectonic plates " é um álbum de rara e evidente mestria, na qualidade, sensibilidade e imaginação com que se mete as mãos em ingredientes familiares da música eletrónica mais abstrata e se torna tudo cintilante e misteriosamente otimista.
Tectonic Plates
Kayla Painter
Quiet Details


