
Realizadores Joaquim Pinto e Nuno Leonel
Instagram/Pathos Ethos Logos
Joaquim Pinto e Nuno Leonel propõem um ensaio sobre o sentido da vida na trilogia "Pathos Ethos Logos", mais de onze horas de cinema acompanhadas por três mulheres.
É uma das maiores aventuras do cinema português. E é uma experiência única para o espetador de cinema. Ao longo de mais de onze horas, divididas em três filmes e em três momentos diferentes, 2017, 2028 e 2037, acompanham-se três mulheres, cujo percurso é afinal a visão da vida de Joaquim Pinto e Nuno Leonel.
Num puzzle de reflexões filosóficas, referências pictóricas, musicais e literárias, vamo-nos perdendo com prazer, mas reconhecemo-nos sempre, aqui e ali. O JN entrevistou a dupla de realizadores.
Quanto tempo demoraram a filmar e a montar este filme?
Nuno Leonel: Filmámos durante oito anos, com algumas interrupções involuntárias. Não contabilizámos a duração das rushes, mas foram certamente mais de 80 horas. A montagem demorou cerca de um ano. E só na montagem ficou clara a organização em torno de três ideias / personagens que se interligam em função de estruturas e escolhas musicais específicas. Nesse contexto, o ano de montagem foi pontuado pela filmagem de diversas cenas adicionais, já integradas no conceito de trilogia.
Joaquim Pinto: A primeira cena (Maria Madalena no final da vida, como eremita), data de 2014. A última cena (as figuras que Mariana descobre no armazém de Telmo) data de 2021, já depois das misturas de som concluídas, a poucas semanas do Festival de Locarno.
Estão seguramente conscientes da singularidade deste vosso projeto, em termos de produção, dimensão e divulgação. Tinham pensado no projeto assim desde o início ou foi-se impondo aos poucos desta forma?
NL - A primeira versão centrava-se nas vidas e escritos de quatro mulheres (Maria Madalena, Vibia Perpétua, Vittoria Colonna e Simone Weil). No guião, que foi apoiado pelo ICA, estavam já presentes as personagens de Rafaela / Perpétua, bem como os desafios de um casal misto que espera uma criança; ela, cigana; ele, trabalhador nas obras. Esse concurso esteve suspenso quase dois anos, bloqueado por processos judiciais entre outras produtoras e o ICA, que não nos diziam respeito. Não era possível que o projeto permanecesse congelado nesse compasso de espera, indiferente à realidade mutável. As linhas narrativas foram-se expandindo e desenvolvendo, dando lugar ao filme que existe.
JP - "Pathos Ethos Logos" seria certamente outro filme se o processo da sua gestação não tivesse sido tão longo e atribulado, acompanhado também por diversos acidentes pessoais (um processo oncológico, dois enfartes, perdas de atores e de entes próximos) e por um aceleramento brutal das crises e conflitos globais.
Como é que se processou a escolha das três atrizes principais do filme?
NL - Não escolhemos as atrizes principais, foi o processo não convencional de construção do filme que as definiu. O jovem não-ator que tínhamos escolhido para a personagem do trabalhador foi preso e deixou de estar disponível. Encontrámos a situação inversa, uma adolescente grávida de cinco meses de um jovem cigano.
Aceitaram o desafio de representarem a experiência pessoal, até ao nascimento da criança.
JP - Conhecemos a Rafaela Jacinto quando ela estava a terminar o ensino secundário, durante a montagem do "E Agora? Lembra-me". De seguida, ingressou na Escola Superior de Teatro. Acompanhou e contribuiu para este filme desde a sua génese. A Ângela Cerveira foi diretora de produção, lançámos-lhe o desafio de fazer um papel. Suspeitamos que ela só se apercebeu de como a sua prestação era central para o filme, quando viu a primeira montagem.
Um projeto desta natureza e dimensão é também uma forma de reação a um tempo em que as pessoas parecem não ter tempo para nada e em que o cinema é também uma coisa que se vê "a correr"?
NL - É, sem dúvida, uma reação aos tempos de hoje, mas é sobretudo uma afirmação de saudade em relação a um cinema que se fez, desde os tempos do cinema mudo, em que não havia uma duração fixa e em que não era necessário ouvir o que os atores diziam (os sentidos surgiam das expressões e dos ritmos musicais), até a um cinema em que a utilização da luz natural dava a sentir o ritmo do tempo.
JP - Organizar este filme em três partes é também uma forma de liberdade, não condiciona a sua existência a um tempo fixo. De facto, é indispensável que seja visto na totalidade para que as ligações entre personagens e ideias se tornem claras, mas a ordem em que as três partes são visionadas não é indispensável. E certamente não se esgotam num único visionamento.
Há uma personagem que diz que o tempo não existe, o tempo é o movimento das coisas. É esse o tema central do filme, o tempo?
NL - O tema principal do filme é o movimento ou, sendo mais preciso, como o fluir do tempo define o movimento. Essa personagem afirma abertamente aquilo que para nós era um pressuposto.
JP - De qualquer forma, nesta obra raramente somos nós a falar pelas personagens, elas não expressam as nossas ideias. Cada uma incorpora experiências pessoais e pedaços de outras vidas, fragmentos de estórias e de história. Era nossa intenção e desejo que ganhassem vida própria. Esperamos que assim seja.
"Pathos Ethos Logos" remete-nos para Aristóteles. Qual a importância da filosofia nos dias de hoje?
JP - Tal como o filme "E Agora? Lembra-me" partiu de uma ideia minha, a intenção de abordar a filosofia e a religião num filme de ficção partiu do Nuno. Pensar a religião, no sentido de re-ligação, é indissociável da reflexão filosófica. Durante a I Guerra Mundial, nas trincheiras, Wittgenstein distribuía aos camaradas os escritos sobre religião de Tolstói.
NL - Talvez a filosofia nunca tenha sido muito importante. Regressemos aos gregos, não separemos a filosofia dos filósofos. No fundo, o pensamento filosófico dá-nos a possibilidade de vermos com menos estranheza, de entendermos os limites do real e do mito. Neste caso, trata-se só de um filme. O ilimitado não somos nós, essa é a ilusão do cinema.
A ideia da Morte, mesmo da Morte de Deus, paira nos filmes. É algo em que pensam cada vez mais?
JP - Uma das primeiras versões do guião deste filme abria com uma cena passada em 1897, em que Annie Mitten lia a Alfred Wallace um fragmento de "O Homem Louco", de Nietzsche: "Para onde foi Deus? Eu digo-vos! Matámo-lo, vocês e eu. Somos todos seus assassinos!" Annie fechava o livro com uma gargalhada, ironizando sobre o problema das traduções. Lembrava que as palavras também podem morrer e que a expressão "La Gaya Scienza" remetia para uma língua esquecida, apagada pela violência da história (em provençal, "gai saber", significava a arte da poesia). Nessa cena, Alfred Wallace seria interpretado pelo Nuno.
NL - Acabámos por desistir dessa filmagem. Ainda bem, pois você afirma que a ideia de morte e da Morte de Deus parece "pairar" ao longo da trilogia. De facto, interrogações que eram afirmadas explicitamente quando começámos a trabalhar no projeto acabaram por habitar de forma implícita o corpo das várias personagens.
JP - Ainda nessa primeira versão do guião, noutra cena, eu iria encarnar a personagem de Kepler no leito de morte, recusando em silêncio a extrema unção. Hoje já não teríamos "tomates" para imaginar tais coisas.
Estes vossos filmes são uma afirmação plena de fazer cinema em completa liberdade. É o facto de se colocarem num local muito à parte no cinema português que vos confere essa liberdade?
JP e NL - A nossa liberdade deve-se talvez à nossa maneira de estar. Liga-se à capacidade de não nos deixarmos aprisionar. Não frequentamos nenhum meio específico no cinema português e não temos qualquer aversão a correntes e a pessoas específicas ligadas ao cinema. O "meio" pode ser em qualquer lugar, neste ponto do Minho onde estamos. Várias pessoas colaboraram no filme e sentem-se a ele ligadas.
O que diriam para convencer as pessoas a aceitar o desafio de ver esta trilogia?
JP e NL - Lemos, num estudo de 2021, que os portugueses estão, em média, ligados às redes sociais durante 72 horas por semana. Passam mais tempo na internet do que a dormir ou a trabalhar. Não será difícil propor-lhes outra experiência, desligarem-se desse estado de pseudo-alerta constante, gerador de tensão e angústia e, por umas horas, percorrerem caminhos inesperados, na companhia das três idades da vida.
