
Philippa Langley na estreia de "O Rei Perdido"
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Philippa Langley é a verdadeira personagem por detrás de "O Rei Perdido", filme que relata a forma como uma historiadora descobriu os restos mortais de Ricardo III sob um parque de estacionamento em Leicester.
Em 2012, uma historiadora amadora, em quem quase ninguém acreditava, descobriu os restos mortais do rei Ricardo III, cujo paradeiro se desconhecia há mais de 500 anos! Um livro e vários documentários depois, Stephen Frears conta a sua inacreditável história em "O Rei Perdido", já nas salas, com Sally Hawkins no papel da verdadeira Philippa Langley. O JN esteve a conversar com ela.
Identifica-se com o retrato que Sally Hawkins faz de si?
Sim, identifico-me. O que a Sally faz é levar-me, a mim e aos espectadores, através desta viagem. No início, eu tinha uma enorme vulnerabilidade, estava a fazer algo de pouco usual para uma cidadã normal. A Sally transmite isso muito bem. E, ao chegar ao fim do caminho, percebe-se que sou uma mulher mais forte, com tudo o que vivi e aprendi.
Steve Coogan, que é também produtor do filme, interpreta o seu ex-marido. No filme, a relação entre os dois é absolutamente maravilhosa. É também um retrato próximo da realidade ou é uma fantasia para o cinema?
Não, é tudo verdade. O John e os nossos filhos foram entrevistados. Tudo o que vemos no filme aconteceu mesmo. A primeira vez que vi o filme tinha-os comigo e os meus filhos disseram que tinham acertado em cheio. Fiquei feliz, porque se os meus rapazes estavam contentes com o resultado então é porque é realmente bom.
O filme fê-la reviver o que aconteceu em 2012. Como é que reagiu à proposta?
Recebi um telefonema do Steve Coogan a dizer que estava interessado na história da busca por Ricardo III. Foi logo em fevereiro ou março de 2014. O corpo tinha sido identificado há coisa de um ano. Foi um choque porque não pensei que houvesse muita gente interessada. Ele tinha morrido há 515 anos. Mas tornou-se viral, houve um interesse global. Disseram-me que 377 milhões de pessoas em todo o mundo assistiram à descoberta e ao enterro do corpo. Não podia imaginar.
Como é que foi o primeiro encontro com o Stephen Frears?
É outra coisa que não se está à espera, o Stephen Frears ir contar a minha história. O Stephen é uma pessoa muito seca, mas muito divertida. A primeira coisa que me perguntou foi se achava correto o argumento que tinha sido escrito. Estive envolvida no processo, estava sempre a dar uma olhadela. Disse-lhe que sim, que era a minha história. Ficou muito satisfeito. Gosto muito dele, porque contou a história como se passou.
Como é que trabalhou com a Sally Hawkins? Ela foi lá a casa ver o seu guarda-roupa? Conte como foi...
Esse trabalho foi feito com a equipa do filme. A Sally entrou no projeto muito mais tarde. E depois tivemos o covid. Ela leu o meu livro e viu os documentários e as minhas entrevistas, que estão online. Nunca a cheguei a encontrar a Sally até ao filme estar pronto. Para mim não houve problema, porque ela não queria fazer uma personificação de mim. Queria torná-la uma personagem, mas dando-lhe veracidade.
Como é que foi então quando se conheceram?
Foi maravilhoso. Ela é uma pessoa tão graciosa, adorável e simpática. Além de ser uma atriz imensamente talentosa.
Para uma cidadã britânica o que representou ser nomeada membro da Ordem do Império Britânico?
É algo de enorme. Sou uma pessoa normal. Ser-me dada essa honra pela Rainha, pelo trabalho que fiz com Ricardo III, deu-me reconhecimento, num momento em que não o tinha muito, em que havia muita gente a denegrir-me. Ajudou-me muito esse reconhecimento por parte da Rainha.
Que relações é que tinha tido com a Rainha e a Casa Real?
Tinha estado em contacto com o gabinete dela, dei-lhes todos os documentos, para que soubessem o que eu estava a fazer. Ricardo III foi um monarca, um chefe de estado. Isso foi logo em 2011. O secretário pessoal da Rainha entrou em contacto comigo para me agradecer. A Rainha deu-me a sua bênção para a minha busca de Ricardo III, por eu o estar a fazer de forma tão respeitosa.
Que impacto é que o filme teve na sociedade britânica?
Tivemos uma excelente reação do público em geral. Gostaram muito do filme, o que é magnífico para mim. Já me contactaram pessoas que tinham visto o filme três vezes. É um pequeno filme independente, o que torna as reações ainda mais extraordinárias.
A História é normalmente contada pelos vencedores. O seu percurso mostra que é necessário olhar para o reverso da medalha...
Absolutamente. A História é escrita pelos vencedores, mas com "O Rei Perdido" estamos a dar-lhe a volta. Mas é mais a história de Ricardo III do que a minha. Os Tudors fizeram muito para denegrir Ricardo III, mas isso está a mudar agora. As pessoas estão a perceber que a história dele e a história de Shakespeare são duas narrativas diferentes.
Já não é possível ler a peça de Shakespeare e ver as suas adaptações da mesma forma...
As pessoas estão a olhar para a peça de Shakespeare de forma diferente, agora. É Shakespeare, as peças dele são fantásticas, adoro-as. Mas as pessoas já não as veem como peças históricas. E, na realidade, Shakespeare não as concebeu como peças históricas. Neste caso, chamou-lhe a tragédia de Ricardo III, foi sempre uma tragédia. Foram os editores dos Tudors que lhes deram esse cunho histórico, que nunca tiveram.
É verdade que teve aquelas visões de Ricardo III, como se vê no filme?
Não, eu não falo com pessoas mortas. É apenas uma invenção dramática dos argumentistas, o Steve Coogan e o Jeff Pope. Foi feito para ajudar o público a compreender melhor o que e quem eu estava a procurar e a minha viagem interior.
