
La Ribot em cena
Gregory Batardon/ Direitos Reservados
A estreia de "Please, please, please" esgotou o Teatro Carlos Alberto, no Porto. Esta sexta-feira há mais uma sessão no âmbito do festival DDD.
Num palco despido jaz um esqueleto de um animal de grande porte, dois bichos com exoesqueletos brilhantes vivem a sua trivial existência nas imediações. Sob um baixo jazzístico vão ocupando-se de dormir, comer, saciar as comichões intermitentes, abrigar-se de perigos e ocasionalmente interagir.
Um dos bichos tem quase 60 anos e o outro já tem mais de 60 anos. Cada um deles, individualmente, soma mais prémios do que os intérpretes do DDD todos juntos. Falamos de La Ribot e de Mathilde Monnier. Chega para o público aceitar qualquer coisa que esta dupla faça? Não. Mas basta para que elas possam experimentar tudo o que lhes apetecer, sob os seus mantos dourados não têm já nada a provar a ninguém. Ao contrário de intérpretes em início de carreira, subjugados a uma lógica comercial, estas artistas têm a possibilidade de arriscar e de falhar e de arriscar e serem bem sucedidas.
A partir do momento em que os bichos ganham humanidade, a peça adquire uma velocidade vertiginosa, há uma emergência latente, elas que estão fora do carrossel, contam-nos que o tempo está a passar. Mas nós, que estamos montados a dar as nossas voltas ilusórias, temos a sensação inversa. Não vai correr tudo bem, não vamos ficar todos bem, dizem-nos ofegantes uma e outra vez. E nós rimos. Talvez porque, tal como na peça escrita brilhantemente por Tiago Rodrigues, pensamos que somos umas "baratinhas" e que resistimos a tudo. A esperança não é a saída, o desespero talvez seja.
Falar e movimentar a grande velocidade, tornando ao mesmo tempo as palavras percetíveis, é um complicado exercício de respiração. Só intérpretes com muita consciência da sua fisicalidade conseguem fazê-lo. A tradução presente na peça é a de uma prisão, nem sempre as palavras surgem pela ordem estabelecida, as ideias ficam coartadas. Mas as intenções fluem.
Tiago Rodrigues inventa então um exercício de empatia, no qual um recém-nascido que já fala discute com a sua mãe as expectativas que cada um deles tem sobre a relação. Estamos a hipotecar o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos, o futuro das baratas e de tudo. No fim, como a rapariga que foi à cave e sobreviveu, estaremos sós e não restará mais nada. A nossa namorada não chegará à hora marcada e nós teremos todos de aprender a nadar para não nos afogarmos.
Foi apenas um simulacro. Mas como diz o verso da música "Please, please, please"", "take this pain from my heart ". A rapariga sobreviveu apenas com uma garrafa de vinho muito cara e bebeu-a, apesar de só gostar de cerveja. Não se desperdiçam as raridades.
