
Paulo Jorge Magalhães / Global Imagens
A Ronda - Leiria Poetry Festival regressa em formato presencial, entre os dias 22 e 25 de abril, para assinalar a liberdade. O ex-ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, é o curador do evento, que pretende estabelecer um diálogo entre a poesia a outras formas artísticas.
Em conferência de imprensa, Castro Mendes destacou alguns "poetas valiosos", como Nuno Júdice, com o qual vai estar à conversa, no dia 22, na Biblioteca Municipal, ou Manuel Alegre, que se deslocará a Leiria dois dias depois, para conversar com António Carlos Cortez, no Centro de Diálogo Intercultural de Leiria.
O ex-ministro da Cultura, poeta e escritor afirmou que a Ronda é "única no país", pela multiplicidade de iniciativas de interesse que promove em torno da poesia e da cultura, onde se incluem música, teatro, dança ou canção de intervenção, protagonizada pelo concerto de Vitorino, intitulado "Canções de Poetas", no dia 23, no Teatro José Lúcio da Silva.
Poesia não é submissa
"A poesia não é submissa", sublinhou Castro Mendes. "É essa palavra de revolta contra tudo o que nos oprime e nos diminuiu que a poesia apresenta", justificou, para dar nota de que o evento se destina não só à comunidade, como a pessoas vulneráveis, de que são exemplo os jovens detidos ou os que recorrem a consultas de psicologia, pedopsiquiatria e pediatria no hospital de Leiria.
Mentor do evento, psicólogo e poeta, Paulo José Costa disse que "os pedopsiquiatras, os psicólogos e os pediatras vão prescrever poemas no final das consultas", que podem ser lidos na sala de espera ou em casa. Haverá ainda um apontamento musical protagonizado pela SAMP - Sociedade Artística Musical dos Pousos.
Paulo José Costa considerou fundamental encarar a poesia como sendo "de todos e para todos" e afastou a ideia de o evento ser "contrafação cultural". "Temos um ADN que queremos manter, saindo para locais onde a poesia possa estar ao alcance de todos."
E deixou como exemplo a iniciativa "Aqui ronda o teu poema", que estará disponível no site, em que todos podem escrever poemas, pintar ou fazer colagens, que poderão vir a ser divulgadas em espaços públicos.
O mentor da Ronda Poética referiu ainda outras "ações fechadas", que envolvem o Lar de Santa Isabel e o Estabelecimento Prisional de Leiria Jovens. Ao JN, acrescentou que os reclusos serão incentivados a declamar poemas da sua autoria ou de autores que tenham trabalhado, com autores locais.
A apresentação do nº 5 da Acanto - Revista de Poesia, no dia 23, no Castelo de Leiria, que "publica autores que de outra forma não seriam publicados", e uma aula aberta da docente da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, Cristina Nobre, com alunos asiáticos e africanos, sobre a premissa da liberdade, foram outras das iniciativas assinaladas por Paulo José Costa.
Educação poética
A este propósito, Anabela Graça, vereadora da Cultura, explicou que estão previstas iniciativas que envolvem os alunos de todos os graus de ensino. "Acreditamos na educação poética. A dimensão socioeducativa é uma marca que queremos deixar."
Preparado ao longo de meses, a Ronda é considerada pela autarca como um "evento distintivo e exclusivo", que este ano assinala 48 anos de liberdade. "Queremos que a poesia chegue ao maior número de pessoas possível, através de mensagens de liberdade, que constroem o diálogo com a paz."
Nesta quinta edição, a Ronda estende-se da cidade a todas as freguesias do concelho, com o envolvimento não só das escolas, como das juntas, uniões de freguesias, IPSS, prisão escola ou centro de acolhimento refugiados. "A matriz comunitária realça esta mudança em relação ao ano anterior", assegura Anabela Graça.
Poesia transformadora
"A liberdade pretende marcar uma mensagem de resiliência, esperança e alento aos mais vulneráveis", afirmou a vereadora da Cultura. "Pensar e sentir a liberdade é perceber a importância deste processo evolutivo de 48 anos. A poesia transforma. A poesia é construtora da paz."
Programador cultura de Leiria Cidade Criativa da Música, o pianista Daniel Bernardes destacou as várias estéticas musicais do evento, desde a música clássica à contemporânea. E recomendou o recital de canções de Fernando Lopes Graça, no dia 24, no Teatro Miguel Franco, e o concerto de Manuel João Vieira, de quem se assumiu como fã, no dia 25 de Abril, na Cidade Criativa da Música.
"Não temos medo de ser subversivos e de dar palco a várias formas de expressão", afirmou Daniel Bernardes, que recomendou ainda a apresentação do disco do Luís Tinoco "Alepo e outros silêncios", pela "ligação ao momento que vivemos", por Rui Vieira Nery.
Outra das parceiras da Ronda é a Livraria Arquivo, onde decorre a sessão de abertura, no dia 22, às 17 horas, com uma conversa com Maria do Rosário Pedreira e Aldina Duarte. Em representação da livraria, João Nazário considerou que, ao fim de cinco anos, o evento entrou numa "fase de maturidade" e assinalou o facto de levar a poesia a "grupos menos óbvios, seja na prisão, seja em zonas mais rurais ou escolas".
Género pouco procurado
"Leiria não seguiu o caminho mais fácil para ter um evento que marca a cidade, porque a poesia não é o género mais procurado", assumiu João Nazário, que defendeu a necessidade de divulgar mais a literatura. "Para as pessoas mais conhecedoras, temos grandes nomes na poesia, mas o público em geral conhecerá Manuel Alegre."
"A maneira de abrir este circuito é através dos jovens", afirmou Castro Mendes. "A poesia falada e declamada cria uma ligação maior, e isso contribui para formar o gosto. Podemos criar um público na poesia se as pessoas começarem a ouvir poemas."
A este propósito, Anabela Graça referiu que o Município de Leiria promove a Gala da Poesia para os alunos do 1º ciclo, pelo que as crianças ouvem e leem poesia ao longo de todo o ano. Por outro lado, refere que a revista Acanto também tem o objetivo de "alimentar a poesia todo o ano".
"O lobby da poesia em Portugal é muito pobrezinho", assumiu Castro Mendes, pelo que considerou determinante o trabalho das Autarquias e das bibliotecas. "Este festival já se destaca e muito pelo seu conteúdo. Agora, falta chegar a um público mais vasto. Queremos que o público nacional conheça melhor esta realidade."
A Ronda conta com um orçamento próximo dos 40 mil euros, financiado pelo Município, pelo que a maior parte das iniciativas são gratuitas, com exceção dos concertos de Vitorino, UHF e de um espetáculo de dança. Os preços oscilam entre os 7,5 e os 15 euros.
A programação pode ser consultada em www.leiriapoetryfestival.com
