
A série, de uma temporada, estreou em março
Foto: Netflix
“Quando a vida te dá tangerinas”, da argumentista Lim Sang-choon, é um retrato poderoso e poético do tempo, da memória e da resiliência.
Das entranhas insulares da Coreia do Sul, chega-nos um dos mais comoventes e delicados dramas dos últimos tempos. “Quando a vida te dá tangerinas” (“When life gives you tangerines” na versão em inglês ou “Pokssak Sogatsuda” na versão original) alia uma narrativa emocionalmente densa a uma sensibilidade estética de fazer cair o queixo e a lágrima. A série de 16 episódios magistrais – alguns longos, outros ainda mais longos (chegam a ter uma hora e meia) – leva-nos para a pitoresca ilha de Jeju, a maior do país, onde mergulhamos nas vidas íngremes dos dois protagonistas, desde a juventude, nos anos 60, até à velhice. E retrata, ao longo de várias décadas, a sua emocionante jornada de amor e resiliência moldada pelo contexto histórico e social de uma Coreia em ebulição.
A história acompanha Ae-sun, jovem sonhadora, aspirante a poetisa e a uma vida que a livre do fardo pesado que herdou por ser mulher e por ser pobre – a pior combinação na Coreia insular daquele tempo (e de tantos outros lugares em tantos outros tempos). Gwan-sik, reservado e leal, de poucas palavras mas ações firmes, é o herói silencioso, o homem que ama em silêncio, protege e permanece, mesmo quando o amor não lhe é retribuído ou totalmente compreendido. Juntos enfrentam os mares revoltos que pelo caminho lhes roubam tantos pedaços, transformando para sempre as vidas que entretanto se fundem numa só.
Gerações de mulheres de fibra
A trama, ora dramática ora cómica, faz um retrato autêntico da cultura das “haenyeo” (mergulhadoras tradicionais de Jeju) e do papel da mulher numa sociedade profundamente patriarcal e em mutação económica e social. Lança um olhar raro sobre tradições femininas de resistência, enquanto cruza três gerações de mulheres de fibra que aprendem a viver com os sonhos incumpridos.
O ritmo demorado e contemplativo em que a trama se desenrola não agradará a quem prefere enredos mais acelerados, mas revela-se necessário para a construção emocional e verdadeira das personagens. A escolha de uma estrutura não linear – com várias analepses e prolepses - é particularmente eficaz, porque permite que o espectador compreenda as mudanças e os crescimentos nos protagonistas, acompanhando o peso do tempo sobre as suas escolhas.
Um dos pontos fortes da obra é a interpretação honesta e cativante dos protagonistas, tanto quando captam as nuances da juventude, do desejo reprimido e da dor silenciosa (IU e Park Bo-gum) como quando, já nas versões adultas, trazem profundidade e estoicismo à narrativa (Moon So-ri e Park Hae-joon). Melancólica sem ser melodramática, "Quando a vida te dá tangerinas" é um lembrente pungente de que a beleza da vida - como do amor - está na persistência dos afetos.

