
Aurélia de Souza: 1866 - 1922
D.R.
Estavam ocultas entre o espólio doado à Universidade do Porto cerca de 70 aguarelas inéditas da artista portuense. Já podem ser admiradas na Casa Comum da Reitoria da UP.
Ninguém imaginava, mas naqueles envelopes doados há mais de 80 anos à Universidade do Porto (UP), sob a singela classificação "Portugália", escondia-se um tesouro. E Rita Gaspar, curadora do Museu de História Natural e da Ciência da UP, mal podia acreditar no que acabara de descobrir: quase 70 aguarelas inéditas da pintora Aurélia de Souza, elaboradas por encomenda no fim do séc. XIX para aquela revista, estavam entre o espólio da publicação - sem que se suspeitasse.
As ilustrações, que representam peças de olaria, foram agora resgatadas ao vasto arquivo da UP e já podem ser admiradas na Casa Comum da Reitoria da UP, espaço que partilham com 26 exemplares do figurado de Barcelos, também fruto de doações à instituição, na maioria, da valiosa coleção do arquiteto portuense Alexandre Alves Costa.
"Estamos a fazer a revisão do arquivo e chegámos a esta fração. Tínhamos um pacote com três envelopes grandes referenciados como "Revista Portugália" e, quando os abrimos, perguntámo-nos: "O que é isto?". As ilustrações de Aurélia de Souza, que serão de 1899, destacaram-se logo. É toda a arte da artista no trabalho de observação científica", diz, encantada, a curadora.
Obras de valor científico e artístico
A mostra das figuras em barro "é uma antecâmara e um contexto para o que as pessoas vão ver da Aurélia de Souza. Selecionamos as mais próximas, em termos de formato e temática" abordada pela artista do Porto, explica Rita Gaspar, que tem a cargo a curadoria da exposição "Aurélia de Souza. Inéditos, a preto e branco", inserida nas celebrações do centenário da morte da pintora e patente até 10 de dezembro.
Compostos por conjuntos de pequenas ilustrações executadas a aguarela, os trabalhos agora exibidos pela primeira vez denotam "um grande controlo da técnica, da luz e da sombra. Mostram mesmo a tridimensionalidade do objeto verdadeiro. Por exemplo: o cavaleiro parece que salta do papel", observa Rita Gaspar, sublinhando que estas "são ilustrações científicas e artísticas".
"É interessante perceber como esta arte popular [do figurado de Barcelos] se vai cruzar com a arte erudita de Aurélia", entusiasma-se a curadora, realçando que "estas ilustrações são das mais antigas que se conhece em relação ao figurado". Porém, "nas últimas oito décadas ninguém viu os originais", um tesouro agora acessível a todos.
"A única referência que os historiadores de arte tinham era a revista, porque nunca tinham visto os originais. O que esperamos agora é que se abram novas perspetivas e novos campos de trabalho. O que nos interessa, enquanto instituição de saber e de memória, é abrir o património a qualquer investigador". Entretanto, Rita Gaspar há de continuar a explorar o arquivo, "descobrindo peças e histórias muito interessantes atrás das peças".
Doações são fundamentais para o acesso público
Rita Gaspar conta ao JN que as aguarelas de Aurélia de Souza chegaram à UP através de uma doação, em 1918, de Bento Carqueja, que fora colaborador da "Revista Portugália", diretor do jornal "O Comércio do Porto" e professor da Universidade.
Depois de Rocha Peixoto, etnógrafo que fundou a revista, em 1899, e fez a encomenda a Aurélia de Souza, ter ido para o Brasil, o acervo da "Portugália" fica à guarda de Bento Carqueja, que mais tarde o doou à Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnografia, depois integrada no Instituto de Antropologia da Faculdade de Ciências da UP.
"Felizmente, ele entrega [os trabalhos] a uma instituição pública de memória, que é a Universidade do Porto, e, hoje, estão disponíveis para todos", realça a curadora, que revela que não havia referência, no material arquivado, às ilustrações, motivo pelo qual ainda não tinham sido detetadas.
"Estiveram apenas preservadas enquanto pertencentes a um processo científico; não estavam valorizadas do ponto de vista artístico", explica Rita Gaspar, assinalando que "as doações são fundamentais, porque, a partir delas, consegue-se tornar uma coleção acessível e disponibilizá-la; deixa de ser particular e entra numa esfera pública".
