
Renate Reinsve e Inga Lilleaas são duas irmãs que reconstroem a sua relação com um pai desavindo em "Valor sentimental"
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As atrizes Renate Reinsve e Inga Lilleaas falam do drama "Valor sentimental", do norueguês Joachim Trier, que estreia esta quinta.-feira em Portugal. Filme é candidato a nove Oscars.
Conquistou o Grande Prémio de Cannes, venceu os cinco maiores galardões da Academia do Cinema Europeu e está nomeado para nove Oscars: "Valor sentimental", de Joachim Trier, é um dos filmes mais esperados do ano. Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas são duas irmãs que veem chegar o pai (Stellan Skarsgard), há muito desavindo, reavivar velhas questões familiares. As atrizes confessam-se ao JN.
As vossas personagens parecem saídas de um filme de Ingmar Bergman. Concordam?
Renate - Bergman está no nosso subconsciente cultural, mas, na verdade, não falámos dele, nem das suas personagens. Ainda assim, sei que o Joachim se preocupa mesmo muito com a forma como Bergman construia a intimidade para estar próximo das personagens, para ver o que estão a sentir e a pensar, para fazer um filme sobre a experiência humana, sobre a existência humana.
Após a comédia "A pior pessoa do mundo", a Renate trabalha de novo com Joachim Trier: como foi?
Renate - Como venho do teatro, sei construir uma personagem e ser analítica em relação ao guião. Mas o Joachim ensinou-me algo novo: que posso não estar constrangida e trabalhar a minha experiência. Sempre que trabalho com ele, consigo ir ainda mais ao fundo e ser mais corajosa. Aprendo sempre algo novo sobre a existência humana com os seus filmes.
O filme é a história de duas irmãs e um pai, em que a mais nova se torna a "mais velha". Falaram sobre essa situação?
Inga - Sim, muito. Falamos sobre como crescer pode ser muito diferente para pessoas diferentes. No início, uma delas era a cuidadora, e talvez tenha ficado exausta por ser "mãe" de alguém tão cedo. Depois, a Agnes assume esse papel, porque é forte e está fresca, porque teve uma irmã maravilhosa.
Renate - Gosto muito da ideia de duas pessoas com idades próximas crescerem na mesma casa, mas viverem experiências totalmente distintas desse lar. Toda a gente que tem irmãos passa por isso. Os pais aprendem coisas novas ou perdem outras pelo caminho quando chega o segundo filho. Acabam por ser pais diferentes, é verdade.
E por que é que o pai escolhe a mais nova para o acompanhar?
Inga - Para mim, entrar num projeto não é ter todas as respostas. No teatro, há muito tempo, pensava tudo ao pormenor, sabia tudo sobre a personagem. Mas isso também pode bloquear. Ter uma base é importante, é uma rede de segurança, mas é essencial estar aberta a que as coisas simplesmente aconteçam.
Onde foi buscar inspiração para papéis que exigem tanta psicologia e tanta vivência, Renate?
Renate - Sempre fui assim, muito existencialista. Desde criança sentia-me diferente. Enquanto toda a gente ouvia Backstreet Boys eu ouvia Pink Floyd. Sempre estive preocupada com o mistério e com perguntas como "por que é que estamos aqui?" ou "por que é que nos tratamos uns aos outros desta forma?". Não entendia a diferença entre adultos e crianças e tentava compreendê-la.
Representar ajudou-a?
Renate - A minha avó colocou-me numa aula de teatro, e comecei por aí. Através da representação, a experimentar, falar, tentar outra vez, fui entendendo mais. Isso guiou-me sempre. E claro, quando vês alguém como Liv Ullmann ou Ingmar Bergman, sentes-te menos sozinha. Percebes que há outras pessoas preocupadas com os mesmos temas. Como Isabelle Huppert, a minha atriz favorita de todos os tempos.
Como foi trabalhar com o Stellan Skarsgard?
Inga - Foi maravilhoso. Ele é incrível, muito caloroso. Uma lenda. Queria trabalhar com ele há muito tempo e nunca pensei que fosse possível. Estou a viver um sonho. Ele é muito real, muito talentoso, e procura as coisas contigo.
Renate - Ele é uma lenda, mas coloca-se ao teu nível. Neste filme, ele é muito terno, é quase uma criança à procura de respostas. É a fragilidade dele que alimenta o amor das filhas.
Como foi, Inga, trabalhar a primeira vez com Joachim Trier?
Inga - Foi muito especial. Foi como sempre sonhei que seria ser atriz. Nem sempre é assim, nem todos têm interesse pelo trabalho do ator, mas ele tem um enorme respeito por isso. Sentimo-nos valorizados, e isso faz-nos trabalhar melhor. Foi maravilhoso. Senti-me em casa.
O que faz dele um cineasta único?
Inga - Não há ninguém como ele a construir uma produção. Dá confiança a todos, protege o espaço criativo, apesar da pressão do dinheiro. É sábio, inteligente, gentil. O Joachim é muito especial.
