
"alla", novo álbum de Surma, é um apelo à emancipação e ao empoderamento
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Ao segundo disco, Surma liberta-se de códigos e amarras para perseguir a sua verdade artística. O resultado é instável e caleidoscópico, apontando múltiplos caminhos.
Apelo à emancipação e empoderamento, o segundo álbum de originais de Surma mostra uma artista revelada: na sua autobiografia íntima e na capacidade de invocar cosmologias musicais díspares para inventar o seu próprio espaço. "alla", palavra sueca sem género que designa a comunidade, é feito de "vulnerabilidade", diz a cantora. Uma vulnerabilidade que é sinónino de força, perseverança, afirmação.
"Sempre fui vista como uma outsider, alguém que não encaixava naquilo que a sociedade espera", diz Surma. Vítima de bullies, figuras que funcionam como espécie de guardiões da norma, sempre dispostos a vexar e violentar qualquer desvio, diz-se agora agradecida ao seu papel: "Sem eles, não seria a pessoa que sou hoje, não teria a mesma força." É essa camada imposta pela sociedade que é necessário atravessar para atingir o "verdadeiro eu", diz a cantora que se estreou em 2017 com "Antwerpen".
Não resistimos a perguntar o que é o "verdadeiro eu" e que condições temos para o reconhecer. "Aí já entramos no labirinto pessoal, e esse é mais difícil de atravessar. Vamos expondo aquilo que descobrimos em cada fase da vida", diz Surma, que em "alla" parece fazer desfilar essas diferentes descobertas e as metamorfoses que ligam as várias fases. O vídeo de "Islet", tema que prenunciou o novo álbum, é todo ele feito de máscaras que se vão pondo e tirando. É Débora Umbelino, nascida em Leiria, 1994, a deambular pelas suas memórias e referências.
Se é improvável descobrir o "verdadeiro eu" - e provavelmente indesejável -, podemos, no entanto, simulá-lo e experimentar. Qual era o "verdadeiro eu" de David Bowie - o da fase glam, o da fase soul, o da fase de Berlim ou o das múltiplas fases que se seguiram? Chamaram-lhe "camaleão", e é essa a identidade, incerta, fugidia, inconformada, que melhor o define. Também a música de "alla" escapa à catalogação.
Surma diz não pensar muito no que vai fazer quando inicia o processo de composição. Leva a sua bagagem, onde cabe "música pop e tradicional, portuguesa, japonesa ou irlandesa" e imagens que lhe suscitam sonoridades - no caso de "alla" há um quadro fundador, que a artista viu numa exposição em Antuérpia: "Monkeys feasting (singerie)", de Jan Brueghel, o Velho, que retrata um grupo de macacos a banquetear-se num luxuoso buffet, e que Surma vê como "representação da sociedade". Uma vez em estúdio, vai experimentando objetos: tubos de plástico e aros de baterias servem para criar batidas, velhos rádios esquecidos em sótãos emprestam-lhe ondas eletromagnéticas que inculca na sua massa sonora.
Os resultados são instáveis e cubistas e atravessados, tematicamente, pela sua própria experiência - das cantilenas de infância à opressão da pandemia, rasgando-se sempre um horizonte mais luminoso que sombrio. Em "Islet" parece ouvir-se as secções finais e delirantes das primeiras canções dos Arcade Fire. Vários temas recordam o experimentalismo dos Animal Collective, vogando entre os sons sintéticos e naturais, entre o jogo de computador e a paisagem. E há um rol de convidados que emprestam uma galeria de novas identidades a um disco mosaico: Ana Deus, Selma Uamusse, Noiserv ou Angélica Salvi.
A nova persona artística de Surma apresentou-se nos principais palcos do país em dezembro, sendo que a próxima oportunidade de escutar ao vivo "alla" é dia 28 de janeiro, no Maus Hábitos, no Porto.
