
"Tenho o mesmo desejo de fazer cinema, mas com uma responsabilidade que não tinha antes", afirma a atriz
Marie Rouge / Unifrance
Suzy Bemba é uma das jovens apostas do cinema francês. E já a vimos num papel importante de “Pobres Criaturas”. O JN foi a Paris descobri-la.
No encontro anual com a indústria e com a imprensa cinematográfica, a Unifrance, entidade que gere a promoção do cinema francês no estrangeiro, lançou o programa 10 to Watch, constituído por dez personalidades, da realização à interpretação, que começam a destacar-se no cinema francês. Dentro de dias, a European Film Promotion apresentará em Berlim, como sempre, os seus 10 Shooting Stars, novas estrelas em ascensão.
Comum às duas listas está a jovem francesa, de origem congolesa, Suzy Bemba. Neste momento, podemos vê-la em “Pobres Criaturas”, percebendo-se que o filme não vale apenas pelo trabalho dos atores Emma Stone, Willem Dafoe e Mark Ruffalo. Ou pela presença de Carminho, se quisermos olhar mais para nós. É que Suzy Bemba é a jovem prostituta e sindicalista que se torna amiga e cúmplice de Bella na sua aventura parisiense.
Suzy Bemba já tinha estado o ano passado no meio de uma polémica, quando o filme “Le Retour” não foi considerado por Cannes, viu ser-lhe retirado o avultado subsídio oficial francês por alegadamente não ter cumprido o protocolo de rodagem de cenas íntimas com menores - no caso com a personagem da irmã mais nova de Suzy Bemba, que já tinha 21 anos na altura – e acabou finalmente por ser mostrado em Cannes. Antes de partir para novas aventuras, Suzy Bemba revelou-se ao JN.
O que representa para si fazer parte dos 10 to Watch e dos Shooting Stars?
Representa a confiança que nos dão, o desejo de trabalhar connosco. Dá sempre prazer reconhecerem o nosso trabalho. Quer dizer que o viram e que agradou. E aqui estou rodeada de pessoas que já conhecia e que admiro, pelo trabalho deles e pelas suas personalidades. Estou muito contente.
Este é um bom momento do cinema francês para uma jovem atriz?
Sim, o que eu desejo é contribuir para contar histórias que sejam muito particulares. E ainda há histórias que não me convém muito. Que são muito estereotipadas ou refletem ainda uma sociedade pós-colonial e patriarcal. Mas sou muito otimista e sei que as coisas avançam. Também recebo guiões que me surpreendem, com personagens que tenho vontade de encarnar. Quero também dar o meu contributo para que muita coisa mude.
Como é que foi escolhida para o filme do Lanthimos?
Mandei-lhes uma gravação, mas esqueci-me completamente que o tinha feito. Lembro-me que estava em casa da minha irmã, no quarto do meu sobrinho, quando fiz a gravação. E três meses depois o meu agente telefonou-me a dizer que o papel era meu. Já nem me lembrava!
Como é que vê a sua personagem no filme?
Adoro este papel, é uma jovem feminista, socialista, que faz descobrir o prazer feminino à personagem da Bella. Apesar de só aparecer numa parte do filme é um papel magnífico.
E não é uma personagem que só está ali para servir a protagonista. É uma personagem por direito próprio. Ao longo da viagem que a Bella faz encontra homens que a tentam possuir e encerrar e vemos que na relação que tem com a minha personagem há algo de mais equilibrado, de troca, de abertura para com o exterior.
Como é que foi a sua relação com a Emma Stone?
Muito bem. Adorei conhecê-la. É uma pessoa muito divertida. Foi muito bom trabalhar com ela porque tem algo de muito generoso e uma grande disponibilidade. Com o Yorgos também. Estivemos a ensaiar duas semanas antes da rodagem. Estava sempre a levar-nos aos limites, para conseguirmos qualquer coisa de natural. É uma pessoa muito simples e atenciosa, sobretudo nas cenas em que nos colocámos numa posição muito vulnerável.
Antes tinha estado em Cannes com “Le Retour”. Como é que viveu a experiência da passadeira vermelha?
Muito bem, apesar de ser um pouco assustador, toda a luz que é dirigida para nós. Mas por outro lado é uma oportunidade verdadeiramente extraordinária de sermos reconhecidos pelo nosso trabalho. É um trampolim, ermite-nos conhecer muita gente, trocar experiências. É uma coisa que adoro.
E filmar na Córsega, o que lhe trouxe de diferente?
Na maior parte das vezes que filmo saio de Paris, há sempre uma espécie de isolamento. Mas ali, a Córsega era uma personagem do filme por direito próprio. Há algo de muito dócil, o calor, o mar e a montanha. Durante a rodagem estivemos sempre em contacto com a natureza, o que trouxe qualquer coisa também ao filme.
Como é que viu a polémica em torno do filme?
Como uma oportunidade de abrir um diálogo, de saber o que se tinha passado e de discutir a situação. Se a discussão não existe, não pode haver confiança. Quando se trabalha neste meio, é fundamental haver um espaço para a circulação da palavra.
A Suzy pertence à novíssima geração de atores e atrizes. A geração anterior bateu-se pelo 50/50, por exemplo…
O 50/50 foi criado por pessoas muito mais velhas que eu e que sentiram a necessidade de melhor organizar, de melhor pensar, de forma a que as imagens que produzimos sejam mais justas e menos nefastas para a sociedade.
E o que pensa da utilização de “coordenadores de intimidade” em filmes com cenas mais ousadas?
A questão não é ter ou não um coordenador. A questão é pensar ou não as cenas de intimidade. Não podemos ter num guião uma frase do género, “eles fazem amor” e dizer que na altura da rodagem logo se vê como se faz.
Qual é então a melhor solução, enquanto jovem atriz que está neste momento a começar a sua carreira?
Devemos pensar uma cena de intimidade como uma cena de ação. Para não estar a produzir sempre as mesmas imagens e o mesmo estereótipo nas cenas de amor. Há uma grande responsabilidade, porque as imagens que produzimos são as imagens que ficam na cabeça das pessoas. Há tantas cenas de intimidade em filmes que finalmente não servem para nada, quando se podem fazer cenas magníficas. Com ou sem coordenador, o que me interessa é que o realizador esteja disposto a fazer esse trabalho.
Porque escolheu o cinema?
Durante dez anos fiz dança clássica e canto. Mas um dia lesionei-me e pensei que o cinema seria uma outra forma de expressão. Disse à minha mãe que queria tentar a representação e como morava no campo era uma oportunidade de ir a Paris. De faltar à escola, de ir às compras, de dormir num hotel, fazer castings. Era a bela vida.
Agora que está lançada, este meio é que pensava ser?
Tenho o mesmo desejo de fazer cinema, mas com uma responsabilidade que não tinha antes. Mas entre o “ação” e o “corta” tenho sempre um prazer enorme, há algo que se apodera do meu corpo. E também estar ao serviço de uma visão, contar histórias que ficam no imaginário. Como a escola, que nos deixa sempre alguma coisa, um filme, quando o vimos, também nos deixa algo. Ter esse poder sobre as pessoas e utilizá-lo de uma boa maneira, é isso que me anima.
