Teatro do Bairro Alto reabre ao público com "Anda, Diana" e mantém programa digital

"Anda, Diana", de Diana Niepce
Alípio Padilha
Sala lisboeta retoma atividade a 20 de abril com a estreia de criação da bailarina Diana Niepce, a partir da experiência da sua tetrapelagia causada por um acidente, segundo a programação hoje anunciada.
"Deixei de procurar o meu corpo no corpo do outro e encontrei-me com o outro. No trato secreto que faz do meu corpo um contador de histórias encontrei o sentido do seu estado íntimo e real", lê-se na obra na base de "Anda, Diana".
Em simultâneo, o Programa Digital continua com conversas, novas propostas do ciclo Histórias do Experimental, desta vez sobre arquivo e instituições, e a estreia de "TM", a nova criação da companhia belga Ontroerend Goed, para redes virtuais.
Continuam ainda as sessões acessíveis. Desta vez, no dia 24 abril às 11 horas, haverá audiodescrição, interpretação em Língua Gestual Portuguesa e legendagem em português e inglês, na peça de Diana Niepce.
Na próxima quinta-feira, antes da abertura e da estreia em palco, na sala digital do Teatro do Bairro Alto, no Zoom, será apresentado o livro de Diana Niepce "Anda, Diana", editado pela Sistema Solar, numa conversa com a jornalista Cláudia Galhós.
A obra, assim como o espetáculo, é uma narrativa interior desenvolvida a partir de factos cruelmente reais, contaminados pela perspetiva artística da autora.
"Quero falar do que escondemos. Não existi quase toda a minha vida por culpa da crença de ter de existir num corpo que não era o meu. Vou parar de pedir desculpa ao policiamento da norma, que destrói tudo o que difere dela própria. Não sou incompleta. Quero parar esta violação da minha intimidade e ninguém me dirá como ser", escreve a autora.
Em "Anda, Diana", a bailarina e acrobata retrata a reconstrução do seu eu, depois de uma queda (que resultou numa lesão medular), num diálogo entre corpo e mente, entre a lógica e o caos, até construir o corpo que dança.
Nesta peça, a criadora propõe-se a questionar o que é a norma, desafiando preconceitos e ideias que a sociedade tem relativamente à estética dos corpos. Aqui, a deficiência, apesar de presente, não se posiciona no lugar de vítima do sistema. Antes, este corpo fora da norma posiciona-se como revolucionário.
Diana Niepce é uma artista portuguesa que investiga a linguagem e o hibridismo enquanto ação política. Procura reformular a identidade do corpo performativo através da sua mutação, intimidade e experimentalismo fora da norma.
O espetáculo vai estar em cena até 24 de abril, com sessões de terça-feira a sexta, às 19 horas, e ao sábado às 11 horas, com Língua Gestual Portuguesa.
A 7 de abril haverá Histórias do Experimental, num programa digital com formato de seminário, com duas conferências e uma mesa-redonda, focando questões como o arquivo, a interligação entre o estético e o político e a contracultura dos anos 1960.
A primeira sessão conta com a participação da investigadora Ana Longoni, que também é diretora do Departamento de Atividades Públicas e do Centro de Estudos do Museo Reina Sofia, e impulsionadora da Rede Conceptualismos del Sur, desde a sua fundação, e que falará sobre ela.
Fundada em 2007, esta rede reúne pessoas da América Latina e da Europa para desenvolver pesquisa, não enquanto exercício académico, mas enquanto forma de abordagem afetiva e política dos processos investigados, em compromisso com a capacidade de desafiar e influenciar, em alguma medida, as condições do presente.
Em aliança com iniciativas públicas e do comum, impulsiona uma política de arquivos em uso, procurando preservar os fundos documentais nos seus contextos.
"Arquivos do comum: Incommon - Performing arts in Italy 1959 to 1979" é o título da segunda parte do programa, que conta com a participação de Annalisa Sachi, professora associada da Universidade de Veneza e investigadora principal do projeto Incommon .
A docente colaborou durante anos com a companhia Socìetas Raffaello Sanzio, de Romeo Castellucci, entre outras estruturas.
No dia seguinte será a vez de os investigadores Marco Baravalle e Sara Buraya Bonet participarem noutro programa de Histórias do Experimental, sobre a festivalização das instituições de artes performativas.
De 21 a 25 de abril, a companhia belga de teatro e performance Ontroerend Goed apresentará "TM", enquanto a 29 de abril a compositora e artista sueca Ellen Arkbro, que tem formação em jazz, apresentar-se-á em concerto no qual interpretará temas de "Chords", trabalho discográfico que editou em 2019.
