
Palco de figuras prestigiadas do teatro nacional e de muitos artistas amadores, o Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral, guarda histórias de quem cresceu, atuou ou simplesmente assistiu em silêncio nesta sala emblemática do Bombarral. Entre o veludo das cadeiras e os dourados dos camarotes, revive-se um património afetivo partilhado por gerações.
Escondido numa artéria discreta do centro urbano do Bombarral, ergue-se o Teatro Eduardo Brazão: uma sala com uma arquitetura que mistura o requinte da arte nova com linhas geométricas mais austeras. A fachada do edifício da rua Dom Nuno A. Pereira impõe-se pela simetria e pelos materiais nobres, mas é no interior que o teatro revela toda a sua alma e elegância, com cadeiras de veludo vermelho a contrastar com o azul e dourado das frisas e camarotes, dispostos em arco à volta da boca de cena: o palco.
A descrição poderia remeter para um teatro italiano do início do século XX, mas trata-se de uma joia rara da arquitetura da época situada no coração do Oeste, Bombarral, distrito de Leiria, mas a pouco mais de 70 km de Lisboa. Com uma lotação de aproximadamente 300 lugares, distribuídos por plateia, frisas, balcão de primeira ordem, camarotes de primeira e de segunda ordem, o que mais se destaca da planta do Teatro Eduardo Brazão é o formato de ferradura que se torna uma mais-valia para a acústica da sala. Trata-se de um de dois exemplares com esta forma, com o mesmo design e traçado de projeto, existentes na Europa. Neste lugar, já atuaram Vasco Santana, Lucília Simões e, entre outros artistas, António Silva, além de atores amadores, como São Cardoso, 81 anos, que dedicou 67 anos da sua vida ao teatro amador e à paixão pelo palco da sua vila.

Maria Purificação Cardoso, apelidada de São Cardoso, pisou o palco do Teatro Eduardo Brazão pela primeira vez em 1958, com 14 anos, com a peça "Casa com Escritos". A atriz refere-se a este espaço como um segundo lar, onde passou parte da sua vida, em papéis diferentes, sempre com a mesma dedicação. "Ponho aquela casa a seguir à minha", conta, emocionada. O encenador da altura, Domingos Soares, a quem chamava carinhosamente Soares, acreditava que as mulheres tinham um sexto sentido para a arte de representar, que eram elas quem melhor interpretavam um texto à primeira leitura. Graças a Domingos Soares teve o primeiro papel de destaque: assumiu a interpretação da criada na peça "Casa com Escritos". São Cardoso lembra-se de um momento marcante dessa época, quando um homem que estava a assistir aos ensaios lhe dedicou uma quadra, que ela recita de memória: "Grande revelação/mil novecentos cinquenta e oito/ Maria Purificação/Linda cara de biscoito."
Um ano depois, com 15 anos, já era protagonista naquela que considera a sua "coroa de glória": "A Muralha". O papel nesta peça ocupa um lugar especial nas suas memórias. Tão especial que ainda recorda algumas falas, como se o tempo não tivesse passado: "Todas as aldeias vieram ver. Foi muito engraçado." O encantamento da estreia deu depois lugar a algum desencanto. Ainda nesse ano, a 27 de agosto de 1959, São Cardoso pensou em desistir do teatro. A peça que interpretava na altura, "Quando a Verdade Mente", marcou-a pela negativa. A personagem que desempenhava, uma menina desprezada pela mãe, era, diz São Cardoso, "mais apagada" e deixava-a desmotivada. Foi o encenador Domingos Soares que a incentivou a continuar.
À época, o entusiasmo da população era tão evidente que os espetáculos se tornavam verdadeiros acontecimentos locais, com plateias cheias vindas de todos os cantos da região. Pagava-se bilhete, mas a quantia era simbólica. Mesmo depois de casar, em 1965, a atriz pensou abandonar a sala de espetáculos, mas não conseguiu. O palco foi mais do que uma paixão, foi também uma forma de resistir, um espaço seguro durante um período pessoal conturbado: "Enquanto o meu marido não deixou de beber, eu também não deixei o teatro." E foram muitas as noites passadas naquela casa que, além de peças, recebia fados, bailes de passagem de ano e concursos que - recorda - "enchiam a sala à pinha".

Desafios de bastidores
São Cardoso não se limitou ao papel de atriz. Com o passar dos anos, acumulou funções no Teatro Eduardo Brazão. Esteve na direção, assumiu o cargo de tesoureira, vendeu rifas e chegou a organizar jogos ao fim de semana para angariar fundos. "A esposa de Franklin Mil Homens, Violete Mil Homens, foi incansável, ajudou muito a levantar este teatro", recorda, sublinhando que o esforço era coletivo.
Com o tempo, começaram a surgir sinais de degradação no edifício, como fungos nas paredes. Ainda tentaram preservar o espaço, mas acabariam por ceder à necessidade de uma restauração. Nem tudo, no entanto, correu como esperava. São Cardoso lamenta o período em que o teatro esteve ocupado pelo grupo SATI (Saltimbancos Teatro Independente): "Chegaram a fazer sardinhadas dentro do teatro e até o pintaram de bordô. A cor original era azul e dourado." A descaracterização do espaço durante aquele período continua a ser um dos episódios que recorda com mais desagrado, por "representar um afastamento da sua identidade original".
"Cena" atual
Hoje, diz-se grata por ver o teatro a recuperar o dinamismo de outros tempos, mesmo que o público já não seja o mesmo. "Vem muita gente de fora, mas falta o público da terra. Os jovens não aparecem, agora é só clicar e têm tudo. Antigamente, corriam para ver uma peça." Apesar das dificuldades, a antiga intérprete do Eduardo Brazão reconhece o trabalho da atual direção, sobretudo, na diversidade da oferta cultural e na modernização do espaço. Rui Viola, diretor da União Cultural do Bombarral, sublinha que este espaço centenário "é indissociável da vida social, cultural e lúdica da população local".
A certeza com que São Cardoso recorda a entrega ao teatro mostra que este percurso não foi apenas artístico, mas sim pessoal e profundo: "Se eu pudesse voltar atrás, aos meus 15 anos, fazia tudo igual. Tive imensas profissões, mas nada me apaixonou tanto como o teatro."
Ainda hoje, se mantém ligada ao Teatro Eduardo Brazão, agora através do grupo da "Universidade Sénior 50+", um vínculo que nunca foi cortado, apenas evoluiu com o tempo. Com entusiasmo, elogia a acústica da sala, explicando que "a qualidade sonora se deve à existência de um poço sob o palco".
A artista amadora recorda também outros tempos, em que a divulgação dos espetáculos acontecia em contacto com a população. "Existia uma carrinha que fazia publicidade através de um megafone por todas as ruas. Alguns dias antes das peças, tirávamos fotos nos ensaios para colocar nas montras."
Desde então, São Cardoso continua a ser uma presença constante. Prova viva de que a história do Teatro Eduardo Brazão não se escreve apenas com datas, mas com entrega, resistência e uma paixão que nunca saiu de cena.

"Lá de cima é que se vê tudo"
Há 17 anos que é António Tojal, conhecido por todos como senhor Tojal, quem acompanha, dos bastidores, muitas das memórias mais recentes do Teatro Eduardo Brazão. Conheceu este espaço ainda antes das obras de restauro, em 2004 e, desde então, tornou-se uma presença discreta, mas essencial. Como técnico de som e luz, ocupa o lugar mais estratégico da sala: "Lá de cima é que se vê tudo", afirma com um sorriso.
Entre os momentos mais marcantes que testemunhou, destaca os espetáculos de Marina Mota, Fernando Mendes e Sofia Alves. O facto de uma vila como o Bombarral ainda ter um teatro centenário no ativo a funcionar com o mesmo propósito inicial demonstra o afeto da população por este espaço e por uma memória coletiva de várias pessoas que, ao longo dos anos, continuam a frequentar os eventos e espetáculos. Ainda assim, reconhece que a preferência dos bombarralenses é muito específica: "Gostam de uma boa revista ou de algo com música. O teatro mais tradicional não tem tanta adesão." A programação do teatro, hoje, tem - considera - "de equilibrar tradição com entretenimento, enquanto tenta responder aos gostos específicos do público local". As novas tecnologias vieram trazer qualidade ao palco, sobretudo no som e na iluminação, agora com luzes LED, que oferecem uma paleta de cores mais rica. Mas nem tem sido suficiente para atrair novos públicos.
Tal como São Cardoso, António Tojal lamenta a ausência de jovens e também dos mais velhos, afastados pelo conforto da televisão, pelos bares ou pelas distrações digitais. Como exemplo, refere o filme exibido para assinalar o 25 de Abril, "Salgueiro Maia - O Implicado": "Passou dois dias antes na televisão e depois quase ninguém apareceu."
A ausência de jovens nas plateias é uma preocupação partilhada por quem conhece de perto a realidade cultural do concelho."
Para Ana Antunes, 48 anos, professora e espectadora assídua do teatro bombarralense e que acompanha de perto o setor cultural local, a solução passa por criar hábitos desde cedo. "As escolas têm de ir ao teatro. É aí que tudo começa."
A necessidade de cultivar uma "cultura de ir ao teatro" entre os mais novos surge como uma proposta-chave para o futuro do espaço, num concelho onde a presença juvenil nos espetáculos continua a ser moderada. O atual diretor artístico Rui Viola está decidido a estabelecer pontes entre o Eduardo Brazão e as gerações mais novas, com esperança de que a juventude regresse a ocupar as cadeiras vazias: "A União Cultural vem mantendo protocolos de colaboração com o Círculo de Cultura Musical Bombarralense, o Agrupamento de Escolas Fernão do Pó do Bombarral e o Conservatório de Música de Caldas da Rainha, por forma a divulgar e oferecer as instalações a um público mais jovem, que tem aderido moderadamente às diversas iniciativas."
Entre ensaios, desafios e palcos cheios, o Teatro Eduardo Brazão continua a ser um símbolo de vida cultural no Bombarral, tratado por todos como a "joia do Oeste". E são pessoas como São Cardoso e António Tojal que mantêm acesa a luz dessa história.
Mais de um século depois, a cultura resiste no teatro de província

Construído com o esforço coletivo dos habitantes do Bombarral, o Teatro Eduardo Brazão (TEB) foi um espaço multifacetado que, além de ser palco de peças teatrais, também acolhia bailes e sessões de cinema. A inauguração, a 27 de fevereiro de 1921, aconteceu com a apresentação da comédia "Dom César de Bazan", interpretada por um grupo local. Este evento contou com a presença de dois atores portugueses importantes do início do século XX: Ilda Stichini e Eduardo Brazão, que dá nome ao teatro. Durante décadas, foi um ponto de encontro essencial para a comunidade, refletindo a importância da cultura na vida social da vila. No entanto, a sua história não foi isenta de desafios. Em 1941, um ciclone danificou gravemente o edifício. A intempérie destruiu a cobertura e o teto original da sala, o que levou à necessidade de uma primeira intervenção.
A segunda intervenção, em 2004, impulsionada pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, aconteceu após uma visita ao espaço, em que reconheceu o valor patrimonial, cultural e artístico. O chefe de Estado defendeu a necessidade de obras estruturais para garantir o futuro do Teatro Eduardo Brazão. Desde então, a sala de espetáculos passou a integrar a Rede Nacional de Teatros do Ministério da Cultura.
Pouco mais de um século depois, continua de pé como um símbolo cultural que sobrevive ao desgaste do tempo e às dificuldades da preservação. Embora as paredes centenárias ainda guardem histórias de outros tempos, o edifício encontra-se bem conservado. A memória de por quem aqui passou continua bastante presente, seja de quem se sentava na plateia a assistir a uma peça de teatro ou a um filme projetado na tela, como de quem teve a oportunidade de subir e ter os holofotes virados para si num palco da terra para a terra. Qualquer que seja a relação de cada pessoa com o teatro, há algo em comum: o sentimento de pertença e de entrega para com o palco.
Maria Catarina Carvalho, 18 anos, frequenta o 2º ano da licenciatura em Jornalismo, na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS). É apaixonada pela arte de comunicar desde cedo, graças à rádio local em que se inscreveu sem contar aos pais e que se tornou a terapia da fala de que precisava. Para além do entretenimento e da experiência na Rádio Miúdos, a dança contemporânea esteve sempre presente na sua vida. É a Maria que não gosta de ir com as outras.
Maria Rita Silva, 18 anos, está no 2º ano de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS). O gosto pela comunicação remonta à Rádio Miúdos, no Bombarral, sua terra de origem, onde foi locutora durante seis anos. O jornalismo entra na sua vida com a vontade de contar histórias e ouvir pessoas. A literatura, a música e a cultura são exemplos de temas que a cativam.
