
"Um inimigo do povo" de Marco Martins
Foto: Lais Pereira Theatro Circo
Comecemos pelo fim. Sexta-feira à noite, Porto, Teatro Rivoli lotado, espectadores em lágrimas, na sua frente os 12 intérpretes de "Inimigo do Povo", na versão de Marco Martins. Mas o que provoca tamanha comoção coletiva?
"Um Inimigo do Povo", de Marco Martins, não é apenas um espetáculo: é um dispositivo de fricção. Fricção entre imagem e corpo, entre memória e presente, entre o que vemos e o que preferimos não ver. A partir de uma fotografia de baixa resolução: furtiva, tremida, mas eticamente devastadora o espetáculo constrói um campo de tensão onde a representação deixa de ser confortável e o teatro deixa de ser abrigo. O palco torna-se superfície crítica: lugar onde a imagem não ilustra, mas interroga.
A operação policial na Rua do Benformoso, em dezembro de 2024, surge aqui não como reconstituição, mas como uma ferida por cicatrizar. A fotografia de homens alinhados contra a parede, braços erguidos, corpos reduzidos a evidência é tratada como documento instável, politicamente carregado, ontologicamente insuficiente. O espetáculo entende, com Barthes e Didi-Huberman, que toda a imagem é simultaneamente revelação e ocultamento. E é nesse intervalo, nesse espaço de opacidade, que a cena opera.
Marco Martins e o coletivo Arena Ensemble recusam o gesto paternalista e a caridadezinha de "dar voz". Em vez disso, constroem um território onde a palavra emerge por fricção: entre atores Rita Cabaço e Rodrigo Tomás, e não-atores, entre biografias reais e materiais ficcionais, entre Ibsen e a vida concreta de quem atravessou fronteiras, oceanos e humilhações. Os testemunhos de Niraj, Shohel, Rajib, Amin não são expostos como matéria documental crua, mas trabalhados como presença política. Cada corpo em cena carrega uma história que não cabe na dramaturgia tradicional, e é precisamente essa inadequação que estrutura a força do espetáculo.
A questão central não é apenas quem é o inimigo, mas quem o fabrica. A encenação revela como a figura do "outro perigoso" é construída por discursos políticos, media e dispositivos institucionais, transformando vizinhos em suspeitos, trabalhadores em ameaça, vidas inteiras em estatística descartável. A fotografia do Benformoso torna-se, assim, sintoma de algo mais vasto: uma pedagogia do medo que organiza o olhar público e legitima a violência sob a aparência de normalidade.
O espaço cénico, depurado até ao essencial, funciona como um "grau zero" da representação: um lugar onde cada gesto, cada silêncio, cada hesitação adquire densidade ética. O espectador é convocado a permanecer no desconforto, a sustentar o olhar, a reconhecer a sua própria posição dentro do sistema que o espetáculo desmonta. Onde para jogar "o Jogo", nome que os migrantes indostânicos dão a essa paradisíaca chegada à Europa, há muitas regras para jogar. Há camas quentes, que custam 10 a 15 euros por umas horas, em troca de vários dias de trabalho onde se pode ganhar uns quatro euros por dia, há a senhora das Finanças que insiste que para ter um comprovativo de morada "basta uma conta da luz, da água", há a exigência de falar português. Há também a morte, uma ameaça omnipresente e um jogo absurdo, afinal quem tem medo de quem?
"Um Inimigo do Povo" não oferece redenção nem catarse. Oferece responsabilidade. Obriga-nos a reconhecer que a violência não acontece à margem da sociedade, mas no seu centro; que o inimigo não é o outro encostado à parede, mas o dispositivo que torna essa imagem possível, aceitável, replicável. No final, o que permanece não é uma narrativa fechada, mas uma pergunta incómoda: que parte de nós está inscrita naquela fotografia? A obra parte o Centro Cultural de Belém de 13 a 15 de março e devia ser mandatória.

