
O espírito de "Telekon", de Gary Numan, é de alienação e isolamento
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Edição especial celebra os 45 anos do inquietante disco de 1980 "Telekon", de Gary Numan.
Reação ao sucesso de "The pleasure principle" (1979), primeiro álbum a solo de Gary Numan após a aventura com os Tubeway Army, "Telekon" (1980) vê um dos pais fundadores da synth pop, ao lado de Ultravox e Human League, recolher-se na sua carapaça, assustado com a atenção e confuso quanto ao seu lugar no universo pop. É também um álbum que volta a falar - ou fala agora com mais acuidade - sobre o estado do Mundo.
Último capítulo da fase a que o músico chamou "maquinal", "Telekon" mantém Numan como o androide acabrunhado que se move num ambiente clínico e distópico. Os ventos são digitais e o sol, descolorado, funciona com um interruptor. Mas em "The pleasure principle" há um acesso pop a esse lugar asséptico, que produz inesperados êxitos, como "Cars" ou "Engineers". "Telekon" deixa de negociar as entradas.
Curiosamente, introduz mais matéria orgânica no seu corpo sintetizado, com pianos à Satie, guitarras autênticas e Numan a aproximar-se, sobretudo em "Please push no more", de uma voz quase humana. Mas o espírito é de alienação e isolamento. O homem tímido que se sente agora "in this cold glass cage" e devolve um olhar glacial. O único calor parece estar na máquina. E se Andy Warhol dizia preferir ser um robô, porque eles não sofrem, o aparato de Numan, entre suspiros e lamentos, aparenta almejar o arrepio de uma emoção.
A edição especial que assinala os 45 anos do disco traz a expansão de alguns temas, como "I die you die", e o inédito "Like a B film", que faz uma espécie de resumo temático de "Telekon". E se em 1980 as letras falavam de sociedades de controlo, de progressiva imbricação do humano com a tecnologia, de atomização e autoritarismo (era de Margaret Thatcher), deixamos um campo vazio ao leitor para que medite sobre a atual ressonância de "Telekon".
