
Teresa Villaverde: "Homenageiam-se os mortos, mas nunca se fala dos vivos. E os vivos estão cá, e têm marcas"
Foto: António Pedro Santos / Lusa
Cineasta Teresa Villaverde revive os traumas dos incêndios de 2017 em Pedrógão Grande no seu novo filme "Justa", que se estreia esta quinta-feira.
Betty Faria interpreta uma mulher que perdeu o marido e ficou cega. Ricardo Vidal, que contou em livro a superação do acidente que lhe queimou metade do corpo, é um homem que tem de criar sozinho a filha. São personagens centrais de "Justa", o novo filme de Teresa Villaverde, inspirado por histórias dos sobreviventes, familiares e amigos de vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande, em 2017. "Justa" é um filme duro, que não se esquece facilmente.
Quando teve a ideia de filmar esta tragédia?
O que se passou chocou toda a gente. Não foi uma coisa que tivesse pensado fazer; várias circunstâncias levaram-me para ali, até por nunca ter conseguido esquecer o que aconteceu. Um ano depois dos incêndios, fui àquelas aldeias e com a ajuda da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande encontrei pessoas que tinham perdido familiares ou tinham perdido as casas.
Como foi recebida?
Com uma grande gentileza. Na altura, não levei câmara nem gravador. Foi muito impressionante, as pessoas estavam ainda completamente em choque. Sobretudo alguns dos mais jovens pareciam acreditar que era possível "desacontecer" o que aconteceu. Foi muito impactante que partilhassem isso comigo e foi a partir dessas conversas que comecei a pensar em trabalhar sobre isto.
Que dificuldades teve em passar a história para filme?
Foi muito difícil encontrar o tom. Nunca tinha trabalhado com algo que tivesse acontecido há tão pouco tempo - e que fosse tão real. Fiz várias versões do guião; a montagem também foi uma grande luta. Mas penso que o que eu fiz era o justo de fazer.
Filmou nos locais dos fogos?
Filmei sobretudo em duas localidades onde ardeu muita coisa, mas onde não morreu ninguém. Foi mais fácil para mim. E as pessoas compreenderam o que estávamos a fazer. Estavam contentes por não estarem a ser esquecidas. Normalmente fazem-se estatísticas e homenagens aos mortos, mas nunca se fala dos vivos. E os vivos são os que estão cá - e têm marcas físicas e sobretudo psicológicas. E sentem que Pedrógão pode voltar a acontecer.
Aprendeu-se alguma coisa?
Houve muito poucas mudanças na organização do território. Há sempre quem aprenda e se esforce por mudar alguma coisa, mas, no grosso da política do país, está tudo na mesma. Por exemplo, aquela estrada onde morreram tantas pessoas, passados dois anos já estava igualzinha, com eucaliptos até à beira da estrada. Um ano depois, ainda havia tabuletas queimadas e dobradas pelo fogo, não houve o cuidado de as mudar, por respeito pelas pessoas. Isso chocou-me imenso.
Há algo de mais pessoal na ideia de fazer um filme sobre o luto?
Não. Mas conheci muitas destas pessoas, fiquei amiga de muitas delas. Neste momento, pensar ou falar destas pessoas com distância é muito difícil. Isto é uma coisa muito forte, muito impactante, muito dura. Foi horrível.
Como surgiu a atriz brasileira Betty Faria no projeto?
Já estava a trabalhar no filme quando, completamente por acaso, através de amigos comuns, a conheci. E demo-nos tão bem logo no primeiro encontro. É daquelas coisas a que chamamos os milagres do cinema. Ela apareceu na minha vida quase como um sinal. Mesmo as pessoas que conhecem o seu trabalho e a acompanharam nas telenovelas vão vê-la como nunca a viram.
E como é que a Betty Faria viveu a experiência?
É incrível como uma atriz como ela atravessa o oceano para fazer uma coisa tão diferente. Ela diz que foi o papel mais difícil da sua carreira. Foi fantástico vê-la entregar-se daquela maneira. Ela é uma força gigante no filme. Gostou muito de se ver e que eu a tenha filmado como ela é. E sentiu como nós todos a responsabilidade do que estávamos a fazer.
Como convenceu Ricardo Vidal a expor-se frente à câmara?
Ele escreveu um livro lindíssimo, "Viver com alma", onde fala de toda a sua recuperação, muito virada para o seu interior. Eu soube da sua existência e achei que era magnífico ele fazer uma das personagens. Fui a Gaia falar com ele, expliquei-lhe o que ia ser o filme e ele disse logo que sim. Sobretudo porque faz o papel de um homem normalíssimo, um pai que toma conta da filha e a quem aconteceu aquilo. E, além de ser uma pessoa incrível, revelou-se um ator extraordinário.
A jovem Madalena Cunha é uma das surpresas do filme.
Fiz o casting no Interior, fazia mais sentido. Andei em várias terras, anunciamos nas escolas e nas freguesias e apareceram várias raparigas muito boas. Foi difícil escolher. A Madalena é realmente extraordinária. Como já tive tanta sorte na escolha de adolescentes, estava com medo. Mas tive outra vez imensa sorte. Ela quer mesmo ser atriz, se não mudar de ideias, será ótimo para o cinema e o teatro português.
O que mudou no seu cinema desde que criou a sua nova produtora?
É muito mais trabalho - a montagem financeira é muito complicada. Mas há um momento de grande calma. Sendo eu a produtora, sei exatamente onde gastar o dinheiro. E na rodagem quase esqueço que sou a produtora.
