
Realizador de "Longe do Paraíso" volta a abordar um tema pouco consensual no seu novo filme
Loic Venance/AFP
Cineasta norte-americano Todd Haynes fala de “May December – Segredos de um Escândalo”, já nos cinemas.
Realizador de filmes de culto como “Safe – Seguro”, “Velvet Goldmine”, “Longe do Paraíso” ou “Carol”, o norte-americano Todd Haynes volta a abordar um tema pouco consensual em “May December – Segredos de um Escândalo”. Natalie Portman é uma atriz que vai interpretar o papel de uma mulher que há duas décadas viveu um escândalo, quando, aos trinta anos de idade, teve um caso com um garoto de 13. Para se preparar, nada melhor do que bater à porta do casal, que vive feliz numa zona dos subúrbios. Julianne Moore, atriz-fétiche do realizador, e Charles Melton interpretam o casal. Em estreia mundial em Cannes, foi aí que estivemos a conversar com Todd Haynes.
De onde lhe veio a ideia para abordar este tema?
Foi a Natalie Portman que me deu o guião a ler, durante o covid. Havia uma grande especulação sobre o que se poderia fazer a seguir, porque toda a gente parou. Eu tinha algumas coisas pensadas na minha agenda, mas fiquei apanhado por este guião.
O que mudou, desde essa primeira versão?
A história estava muito centrada na personagem que a Natalie interpreta, a Elizabeth. Começámos a discutir como é que ela a iria interpretar, quais seriam as expectativas do espectador. Como é que a atriz iria interpretar uma atriz e não apenas uma mulher. Ela gostava de jogar com essa ideia do espectador que sente que aquela personagem é estável. E aos poucos vai descobrindo que não é bem assim.
E a Julianne Moore?
Era a escolha óbvia, até pela idade da personagem real que ela iria interpretar. A Natalie adorou a ideia e perguntou logo se eu achava que ela ia aceitar. E, como vê, ela aceitou.
Os planos em que as duas olham de frente para a câmara fazem pensar no “Persona”, do Bergman. Quantas vezes teve de repetir para parecerem tão naturais?
Tínhamos muito pouco dinheiro e muito pouco tempo para filmar. Tudo teve de ser muito bem preparado e a ideia era repetir o mínimo possível cada plano. Fazer mesmo algumas cenas num único plano. Utilizar o espelho como motivo recorrente ao longo do filme. As duas olham para a câmara como se estivessem ao espelho, mas nunca vemos o espelho. Foi uma coisa conceptual, mas que também teve a ver com as limitações do nosso plano de trabalho.
Com duas atrizes assim é mais fácil trabalhar…
Claro, sem atrizes como estas, este tipo de planos não se aguentam durante muito tempo. Mesmo com grandes atrizes nunca se sabe como o público vai reagir. Mas decidi avançar. Depois de filmar essas cenas não havia outra forma de fazer a montagem. Era um risco, mas acho que valeu a pena.
Visualmente, o filme é muito coerente, sente-se uma ideia, talvez diferente da dos seus outros filmes.
Desde a escrita que comecei a imaginar este filme visualmente. Numa forma que levasse o espectador a pensar no que estava a ver à medida que o ia vendo. É claro que pensei no “Persona”, do Bergman, um filme que adoro desde que o vi quando estava na universidade. Como é que iria conseguir que o meu filme funcionasse da mesma forma?
Normalmente, a sociedade aceita melhor casos em que é o homem o mais velho. Aqui é o contrário…
É claro que esta diferença de idade num casal é complicada e moralmente incompreendida. Mas estamos a olhar para uma relação que na realidade sobreviveu, contra todos esses obstáculos. As mulheres do filme são os agentes digamos mais ativos. Seguem os seus desejos, mesmo que inapropriados, com muitas vítimas pelo meio.
O cinema tem seguido também essa dualidade…
O Woody Allen fez imensos filmes com homens mais velhos e raparigas novas, mas nunca o inverso. E é ele que diz que ninguém estaria interessado numa história assim. Mas pensem em “Sunset Boulevard” ou no “The Graduate – A Primeira Noite”, filmes capitais na história do cinema. E voltei a vê-los, quando estava a preparar este filme.
É a sociedade patriarcal a funcionar…
É tudo uma questão de poder e de dominação. A questão não se pode reduzir a sexo, homem/mulher. Mas mesmo em sistemas de dominância patriarcal, algumas mulheres podem ocupar esses papéis. Pessoas homossexuais podem representar aspectos da diferença heterossexual nas suas relações. Podem-se adotar aspectos ou outras formas de interação, mesmo quando os sexos não estão alinhados. Vejo isto mais como uma questão de poder.
No caso desta família como é que isto se resolve?
O filme mostra um homem e uma mulher que aceitam o lugar que ocupam no casal. O Joe nem sabe onde é que estão certas coisas dentro de casa. É muito frequente que seja a mulher a gerir a família, o casamento, a casa. É ela que dita o que se compra, o que se come, muito mais vezes do que o homem. E os homens ficam muito contentes que assim seja. Mas o poder económico é uma coisa diferente.
