
“Sons”, do dinamarquês Gustav Moller, é um dos filmes a concurso na competição
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É já neste sábado que vai ser conhecido o novo Urso de Ouro do festival de cinema, sucedendo a “Sur l’Adamant”, de Nicolas Philibert.
Sem grandes entusiasmos, confirmando uma seleção pouco memorável a fechar o ciclo de Carlo Chatrian e Mariette Riessenbeek à frente da Berlinale, a competição chegou ao fim, com a apresentação dos três últimos filmes candidatos a suceder a “Sur l’Adamant”, de Nicolas Philibert, como o novo detentor do prestigiado Urso de Ouro da Berlinale.
Da Tunísia chegou “Who Do I Belong To”. Trata-se de certa forma da extensão de uma premiada curta-metragem anterior da realizadora Meryam Joobeur, centrada numa família de camponeses que veem dois filhos partirem para a Síria, para se juntarem ao Estado Islâmico. Um dia, um deles regressa com uma mulher virgem, vestida com uma burka, sabendo-se que o seu irmão morreu. Mas os traumas desse passado terrível não o irão abandonar. A realizadora, que inicia o seu filme no tom realista, deriva perto do fim para um delírio metafórico, não se percebndo muito bem nem a narrativa nem onde quer realmente chegar.
“Sons”, do dinamarquês Gustav Moller, poderia ser um forte candidato ao Urso de Ouro se não fossem os enormes buracos no seu argumento. A história centra-se numa guarda prisional que um dia vê chegar à prisão o homem que matou o seu filho, que também se encontrava encarcerado. O que vemos ao longo de duas horas de bom cinema, bem filmado e com uma espantosa Sidse Babett Knudsen, ela sim candidata ao prémio de interpretação do festival, é o confronto desta mulher não só com o assassino do filho mas sobretudo com a forma como, face a ele, consegue lidar com os seus traumas e fantasmas. O que não se compreende é como, numa sociedade avançada como a dinamarquesa, um assassino é colocado na mesma prisão onde uma das guardas prisionais é a mão do jovem que matou!
Finalmente, o Nepal tem uma oportunidade enorme de mostrar o seu cinema e a sua cultura com a selção em competição de “Shambhala”, de Min Bahadur Bham. Numa vila dos Himalaias onde se pratica e poligamia, uma mulher grávida vê o seu principal marido desaparecer, partindo em sua busca, com o marido secundário. Filmado em ecrã panorâmico e beneficiando das deslumbrantes paisagens montanhosas, o filme cai por vezes no bilhete-postal e no folclórico, mas tem a ventagem de nos dará descobrir rituais e usos de uma cultura com quem não comunicamos muito facilmente, a não ser através da gastronomia.
Entretanto, em outras seções, podemos assistir à única entrada da Argélia na seção oficial da Berlinale, neste caso no Forum. Por detrás do título mais longo do festival, “Chroniques fidèles survenues au siècle dernier à l’hôpital psychiatrique Blida-Joinville, au temps où le Docteur Frantz Fanon était chef de la cinquième division entre 1953 et 1956 », encontramos uma evocação do trabalho do médico psiquiatra Frantz Fanon, no hospital argelino de Blida-Joinville, ainda sobre a ocupação colonial francesa, tentando introduzir métodos de cura mais humanos, que substituam os habituais choques elétricos.
Com um preto e branco rigoroso e uma narrativa que a momentos nos faz lembrar Robert Bresson, o realizador Abdenour Zahzah ofereceu um dos bons momentos do festival, infelizmente escondido no meio de mais de centena e meia de títulos em projeções dispersas por toda esta gigantesca cidade.
