
A liberdade de expressão é um dos valores que Rushdie defende nas páginas do livro
Joel Saget/AFP
Publicado pela D. Quixote, o volume "Linguagens da verdade", um conjunto de ensaios de Salman Rushdie escritos entre 2003 e 2020, acentua a capacidade regeneradora da histórias.
A reunião de textos avulsos de um escritor - sejam discursos, conferências ou artigos de opinião - soa quase sempre mais a um exercício pretensioso do que a uma efetiva vontade de acrescentar elementos válidos à sua obra. A pecha acontece porque, nas referidas ocasiões, o autor tende a exibir ares de autoindulgência, como se ficasse inebriado por receber honrarias ou participar em atos solenes ao lado de monarcas e governantes, em vez de ser o explorador ou brincador-mor que lhe permitiu cativar tantos leitores com a sua escrita.
Não escapando totalmente a esses sinais, "Linguagens da verdade", o livro que reúne um conjunto de textos de não ficção escritos por Salman Rushdie entre 2003 e 2020, é, porém, muito mais do que isso.
Nas páginas de maior fôlego, o autor anglo-indiano consegue mesmo ser arrebatador, como acontece quando disserta sobre o poder inalienável das histórias e a sua capacidade regeneradora.
Num mundo literário cada vez mais virado para aquilo que na maior parte são apenas estéreis exercícios especulativos encobertos sob o manto da autoficção, a defesa que faz da necessidade de nos mantermos ligados à raiz última da humanidade que é a imaginação poderia muito bem ser um mero queixume de quem se viu atropelado pelo rolo compressor das mudanças, acumulando raivas e frustrações.
Mas, concorde-se ou não em pleno com o teor da sua apaixonada defesa da forma tradicional das narrativas, há que reconhecer que, pese embora todas as transformações ocorridas, "nascemos a querer comida, abrigo, amor, cânticos e histórias" e assim permanecemos até ao fim dos nossos dias.
O mesmo se passa com a aspiração da liberdade, valor supremo a que dedica um dos melhores textos do livro, "A caneta e a espada", a propósito da ação do PEN Clube em prol da livre expressão dos escritores.
Se descontarmos as frequentes passagens em que Rushdie parece mais interessado em fazer passar a imagem de íntímo das celebridades ou a desnecessária repetição dos elogios à sua obra feitos por Gabriel García Márquéz, Philip Roth ou Harold Pinter, "Linguagens da verdade" permite-nos entrever amiúde o jovem que cresceu a ouvir relatos maravilhosos do inesgotável imaginário indiano e permanece, muitas décadas depois, empenhado na tentativa de capturar a verdadeira essência das histórias.
"Linguagens da verdade"
Salman Rushdie
D. Quixote
