
Dupla Mariana Caló e Francisco Queimadela mostra "Estado de espírito", uma retrospetiva de 15 anos
Foto: Direitos reservados
Três exposições em diálogo, ou em confronto, para percorrer até 15 de fevereiro na Galeria Municipal do Porto.
O que se desenrola na Galeria Municipal do Porto não é tanto um "ciclo de exposições" (termo que tresanda a marketing institucional higienizado) mas antes um triatlo ontológico distribuído por estratos físicos.
No Piso 0, a dupla Mariana Caló e Francisco Queimadela exibe "Estado de espírito", uma retrospetiva de 15 anos que nos força a confrontar a ideia de que o vídeo e a escultura são, na verdade, um modo desesperado de fixar o fluxo de consciência. A densidade matérica faz o espectador sentir-se ligeiramente inadequado na sua própria tridimensionalidade.
Subindo ao Piso 1, a exposição "Recursões: uma cartografia de territórios inacabados", com curadoria de Kiluanji Kia Henda e Margarida Waco., com Lilianne Kiame, Flávio Cardoso e Raul Jorge Gourgel, opera uma espécie de autópsia estética sobre as "promessas e ruínas da modernidade". É o tipo de confronto - focado na angolanidade e no colapso das utopias - que nos faz questionar se a "modernidade" foi alguma vez um projeto ou apenas um erro de cálculo monumental cujos destroços agora decoramos.
E depois há o Piso -1. Sob curadoria de Matilde Seabra, "Aprender a ensinar, ensinar a aprender" recupera o legado de Elvira Leite. Entre pinturas raramente vistas e a recriação do seu atelier, somos lembrados de que a pedagogia da arte é, possivelmente, a única forma de resistência que não se autodestrói no processo.
Esta tripartição não é casual. Ao descermos ao atelier de Elvira Leite após as ruínas do Piso 1, percebemos que a Galeria desenhou um mapa: a arte não serve para decorar o fracasso do mundo, mas para construir o método que nos permite, finalmente, aprender a habitá-lo.
Visitar este tríptico, patente até 15 de fevereiro, é menos um "passeio cultural" e mais um exercício de reorientação sensorial num edifício que, por instantes, parece conter mais mundo do que aquele que ficou lá fora no parque de estacionamento.
