Estreia hoje, sexta-feira, às 21.30 horas, no Teatro Nacional de S. João, no Porto, a peça "Breve sumário da história de Deus", com encenação de Nuno Carinhas. É a primeira do actual director artístico do teatro nesta qualidade. Em cena até 20 de Dezembro.
O texto, marcadamente religioso e da autoria de Gil Vicente, proporciona a ida ao palco de algumas das personagens mais emblemáticas da história cristã.
"Trata-se de um texto", disse Nuno Carinhas, ao JN, "com um forte pendor religioso", declaradamente bíblico, mas que o encenador garantiu "ser apenas uma consequência dos episódios polémicos que têm surgidos nos últimos tempos".
O encenador considera que "é sempre bom voltar a Gil Vicente", aliás, confessa que "voltaria sempre" e reconhece estar satisfeito com a linguagem e dramaturgia da peça que hoje vai estrear.
"É um poema do Gil Vicente sobre a Biblía e trabalhei o texto escolhendo as personagens que considerei mais importantes", acrescentou.
Admite, por outro lado, que este texto, como outros de Gil Vicente, se poderá designar por "conto de fadas", com personagens de que toda a gente já ouviu falar "e que nos levam para um objecto completamente surrealizante, onírico e extraordinário".
Entretanto, o bispo do Porto, Manuel Clemente, assistiu a um dos ensaios da peça, e segundo disse à agência Lusa, gostou, sobretudo "da belíssima coincidência entre a escrita e a alma vicentinas".
O bispo portuense expressou também a sua opinião num texto escrito propositadamente para a apresentação da peça. Manuel Clemente considera, por exemplo, que, nesta encenação, "tudo fica dito, porque basta para entrever. Da história de Deus, abrindo eternidade no tempo, só se pode falar como entrevisão. E assim é arte. Espantosa ocasião de nos espantarmos de nós. Entre figuras e sentenças, Gil Vicente reencontrou-nos. Na mesma história afinal".
Sublinhe-se que o bispo do Porto, além de ter criado um texto sobre a peça, participará no conjunto de conferências "O que resta de Deus", que o Teatro S.João organizará entre os dias 26 deste mês e 5 de Dezembro, a pretexto de "Breve sumário da história de Deus".
Por outro lado, o encenador adiantou, ainda ao JN, considerar que esta peça "tem curiosos ingredientes identificáveis no ponto de vista cultural", manifestando-se satisfeito com os resultados obtidos nos ensaios.
Pronunciando-se sobre o facto de esta encenação ser a primeira que apresenta enquanto director artístico do Teatro S. João, Nuno Carinhas disse que faz "todos os espectáculos com o mesmo cuidado". Confessando nunca ter pensado nissso, Carinhas admitiu que a "responsabilidade talvez possa ser maior".
Talvez por isso é que pediu ao ex-responsável pelo "S.João" Ricardo Pais para assistir a alguns ensaios.
Depois do Porto, "Breve sumário da história de Deus" irá à cena no Teatro Nacional D.Maria II, em Lisboa, de 8 a 31 de Janeiro.
O conjunto de conferências "O que resta de Deus" arranca no proximo dia 26, pelas 18.30 horas.
A primeira conta com a intervenção de José Tolentino de Mendonça e Armando Silva Carvalho, com a moderação de Jacinto Lucas Pires. No dia seguinte, será Ilda David e Paulo Pereira, num debate moderado por Bernardo Pinto de Almeida.
Para o dia 3 de Dezembro, está prevista a conferência de Clara Pinto Correia e Tiago Cavaco, com a moderação de Daniel Jonas. A 4, intervêm Amélia Polónia e José Augusto Cardoso Bernardes, com moderação de José Luís Ferreira. A última conferência será no dia 5, em que participa Manuel Clemente, Nuno Carinhas, Daniel Jonas e Alexandra Moreira da Silva.
