
Nick Cave e Warren Ellis em "This much I know to be true"
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Músico e compositor australiano fala do documentário "This much I know to be true", que fez com Nick Cave.
Trágica coincidência esta: na semana em que chega "This much I know to be true", o filme em que Nick Cave interpreta canções dos dois últimos álbuns e se sente ainda o luto pelo seu filho, Arthur Cave, morto em 2015, aos 15 anos, o australiano anuncia a morte de outro filho, Jethro Cave, de 31. O filme tem estreia esta quarta-feira em salas de todo o mundo. Em Portugal, pode para já ser visto no Cinema Medeia Nimas, em Lisboa, no Teatro Rivoli, no Porto, e no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra. No Festival de Berlim, onde fora exibido pela primeira vez numa sessão especial, o JN falou com Warren Ellis, não só literalmente homem dos sete instrumentos como amigo íntimo de Nick Cave, com quem colabora há quase 30 anos.
O filme é uma espécie de compensação pela anulação da tournée que estava prevista, por causa da pandemia?
Talvez. Mas é mais uma resposta aos tempos que vivemos. Esta crise global em que não podemos estar juntos. Quando eu e o Nick tivemos uma oportunidade fizemos "Carnage" e achámos que íamos ter outra aberta para o tocar ao vivo. Já se tinham anulado as tournées de "Ghosteen".
Sentiram a falta das tournées.
O ciclo normal é fazer um disco e uma tournée, um disco e uma tournée. O "Ghosteen" já quase fazia parte do passado. Mas foi tão complicado fazer este filme, [rodado] antes de se começar a vacinar as pessoas. Foi necessária uma enorme capacidade de organização. Sente-se que é um filme que acontece num momento muito específico.
Nick Cave mudou muito desde que o conheceu?
O Nick mudou da mesma forma que todas as pessoas que conhecemos naquela altura mudaram. Muitas das pessoas que conheci naquela época já morreram. As pessoas mudam. É o que fazemos na vida, penso. De certa maneira, é o Nick que sempre conheci, mas mudou, como todos nós.
Onde é que se viram pela primeira vez?
Conheci-o em Melbourne, a meio dos anos 1980. Coisas de drogas, na altura. Andávamos todos à procura de qualquer coisa. Eu morava numa casa onde ia aparecendo muita gente. O Nick era uma dessas pessoas que apareciam, devemos ter-nos cruzado no corredor. Mas eu já era fã dos Bad Seeds.
Quando é que começou a trabalhar com eles?
Conheci o Nick a sério num jantar, acho que em 1994. E a meio do jantar, como soube que eu tocava violino, convidou-me para ir ao estúdio dele. Ao fim do primeiro dia perguntou-me se queria vir o resto da semana. Claro que disse que adorava. Depois convidou-me para a tournée e tem sido assim desde então.
No filme vemos um Nick Cave bastante calmo, embora se sinta a raiva no seu interior, que tenta domar. Como era ao princípio?
Há sempre momentos e momentos. Comigo foi sempre bastante calmo. Nós passamos muito tempo juntos. Quando era mais novo podia haver alguma fricção, mas com a idade tem de se aprender a lidar com as situações quando estamos em tournée. A minha ligação com ele sempre foi a que vemos no filme.
Até que ponto viver em Paris afetou a sua música?
O local onde vivo não afeta a música que faço. Posso fazer música num quarto de hotel, onde seja. O que se passa lá fora não conta. Neste momento talvez me sinta mais inseguro. Mas afastar-me de tudo foi importante para mim.
Como é que definiria a sua música?
Às vezes meto-me num táxi, levo o meu violino e o motorista pergunta-me se sou músico. Eu respondo que acho que sim. Depois pergunta-me que tipo de música toco e nunca sei o que responder. Acho que ainda estou numa aprendizagem. Faço bandas sonoras, música para exposições, o que for preciso. Mas nunca me considerei um artista. Talvez já tenha alcançado algo e esteja na hora de fazer outra coisa qualquer, como abrir uma loja de fish and chips. Mas tenho de me despachar, tenho 57 anos.
As canções do Nick Cave são muito emocionais. Podemos chorar ao ouvi-las. Quando as está a tocar é só uma coisa técnica que ensaiou mil vezes ou também é capaz de se emocionar?
Nunca é uma coisa técnica. Mas também não estou sentado no estúdio a chorar de cada vez que ouço uma canção. Estou lá para fazer com que a música vá num determinado sentido. Eu não faço música para ouvir. A música que ouço são outros que a fazem. Mas é verdade que fico sempre comovido quando o Nick canta "Into my arms".
Como é que foi ser "ator" de um filme?
Já tinha feito o outro filme do Andrew Dominik ["One more time with feeling", 2016]. Tenho total confiança nele e sigo o que ele me diz. Acho que ele é um génio. Gosto muito de o ver trabalhar. Foi um grande privilégio para mim. Ele tem uma visão muito global do que quer fazer. Mas eu não podia fazer filmes como trabalho. Não tinha paciência. Como o Andrew diz, sou muito caótico.
Tem alguma memória em particular de concertos em Portugal?
Temos uma ligação muito especial com todas as nossas audiências. Não gosto de salientar este ou aquele local onde tocámos. Os nossos espetáculos são uma coisa comunitária, há dar e receber dos dois lados. As pessoas que estão a assistir são tão importantes como as que estão no palco.
Qual é a canção dos Bad Seeds que considera mais perfeita?
Não sei o que é perfeição. Os Bad Seeds estão longe de ser uma banda perfeita. Também ninguém quer que seja perfeita. É verdade que toda a gente quer escrever a canção perfeita. Mas no que me diz respeito ainda está para vir. Mas não julgo dessa forma as coisas em que estou envolvido.
Até que ponto a sua amizade com Nick Cave foi importante nos momentos piores que ele viveu?
Ele explica isso de uma forma muito mais articulada do que eu. Porque é sobre ele. Do meu lado, a única coisa que pude fazer, como amigo, foi, o que é que precisas, como é que posso ajudar? Eu não tenho referências para falar do que ele passou. Nunca passei por isso e espero nunca passar. O melhor que fiz foi trazer o Nick de volta ao trabalho.
O trabalho é também o seu escape?
Nos meus momentos mais difíceis o trabalho foi a única coisa que fez sentido para mim. Sou péssimo quando não estou a trabalhar. E não sei o que fazer nas férias. Tenho de estar mesmo cansado para achar que mereço dois dias de folga. A minha ideia de horror é duas semanas na praia sem nada para fazer.
O duplo luto de Nick Cave
"This much I know to be true" é o mais recente capítulo da relação artística do realizador Andrew Dominik com Nick Cave. Em 2000, o filme de ficção de Dominik, "Chopper", teve banda sonora composta por Mick Harvey, membro dos Bad Seeds. Sete anos mais tarde, Cave assina a banda sonora de "O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford", na companhia do velho amigo Warren Ellis. No anterior documentário de Dominik, "One more time with feeling", Cave apresentava o álbum "Skeleton tree", depois de renunciar à respetiva tournée após a morte do filho adolescente. Este novo filme é a compensação também para o facto de não ter podido avançar em 2020 com a tournée, que incluía uma data em Lisboa. O australiano aproveita para nos presentear com emotivas interpretações de canções dos dois últimos álbuns, "Ghosteen", de 2019, e "Carnage", já de 2021. Mas "This much I know To be true" não é um filme-concerto nem uma sucessão de videoclipes. Num estúdio fechado, acompanhado por Warren Ellis, um baterista e um grupo vocal, Cave emociona-se e emociona-nos a cada nota. O filme mostra-nos ainda outra ocupação atual do australiano, a fabricação de pequenas figuras diabólicas em cerâmica, e observa-o a ler mensagens que recebe dos fãs. Um luto a que se segue agora outro luto. Estamos todos com Nick Cave.
