
"Wonderlandi", de Lander Patrick, chega a Braga numa nova versão diferente da apresentada no Porto.
Foto: Direitos Reservados / Theatro Circo
Nova peça coreográfica e musical de Lander Patrick, "Wonderlandi" sobe esta sexta-feira ao palco do Theatro Circo, em Braga.
É numa versão mais depurada, mais musical, mais cheia, mais curta e sem atenuantes que "Wonderlandi", de Lander Patrick, chega sexta-feira ao Theatro Circo, em Braga, após ter passado pelo Teatro Municipal do Porto. Como explica o coreógrafo ao JN, "um espetáculo tem de ser fogo para o espírito e não pode estar tão dilatado que dilua o sentimento".
A génese da peça começa com um theremin, um dos primeiros instrumentos musicais eletrónicos, inventado em 1920 pelo físico russo Leon Theremin, que pode ser tocado sem qualquer contacto físico, "utilizando duas antenas para criar campos eletromagnéticos".
Para Patrick, que se assume "um capricorniano com muita dificuldade para aceitar a intuição", o theremim deu-lhe "uma sensação de maravilhamento - porque de alguma forma era uma música fantasmagórica, intangível como a morte".
A sensação serviu de batismo ao espetáculo que junta esse prefixo "Wonder" a "Landi", que é o seu nome de atuação como DJ.
Intérpretes num estado de "obina"
Mas, como nos conta o enredo, o espetral instrumento acabou por se estragar, sendo uma das principais peripécias desta produção, já que não havia peças para o arranjar. Nasce então uma nova busca, de sons indissociáveis do movimento "obina", uma expressão apreendida no Lesoto e que é um estado de cantar e dançar. "Aliás essa coisa de uns cantam, outros dançam, outros tocam é uma noção muito europeia", diz Patrick. Talvez por isso mesmo, os seus intérpretes necessitem de estar nesse estado de "obina".
Outra das peripécias com que se enfrentou foi o facto de ser "autodidata" e ter aprendido a executar tarefas técnicas, pela primeira vez, com o recurso ao chatgpt. "Ao contrário dos tutoriais do YouTube, o chatgpt dá-me respostas concretas sobre como fazer as coisas, é um assistente maravilhoso para superar softwares de vídeo e de música", confessa.
No caso de "Wonderlandi", a música, ao contrário dos outros espetáculos em que aparece como premissa acoplada com o espaço, surgiu depois. "No final de tudo consegui escrever um texto que, na verdade, é uma canção, uma evocação da música como antídoto para o ódio. Porque se um grupo de estranhos começar a cantar todo em conjunto, forma-se um coro e não há nada que transforme mais as pessoas do que isso".
É este coro anti-ódio que vai fazer o coletivo funcionar como um órgão, ou um edifício-corpo, com as suas tubagens e as suas canalizações agora em estado depurado.

