
Sean Penn elogiou a liderança de Zelensky e a luta do povo ucraniano
EPA/CLEMENS BILAN
No dia em que o ator e realizador norte-americano concentrou atenções no Festival de Berlim com o seu documentário "Superpower", Susana Nobre mostrou pela primeira vez o seu "Cidade Rabat".
Um dos momentos mais esperados do terceiro dia da Berlinela era sem dúvida a presença de Sean Penn na conferência de imprensa do filme que co-realizou, "Superpower". O documentário, que fora exibido na véspera, começou com o desejo do ator e realizador norte-americano de encontrar o presidente Zelensky. A ideia era mostrar como na Ucrânia fora possível um popular ator de comédias de televisão ter chegado ao mais alto cargo da nação.
Sabe-se hoje bem que Zelensky era a alternativa apesar de tudo mais credível à continuidade de um presidente fantoche, completamente nas mãos da Rússia de Putin. Mas, vistas algumas imagens dos programas humorísticos de Zelensky, percebe-se a surpresa. Só que Sean Penn chega a Kiev nas vésperas do início da "operação especial" russa, assistindo in loco aos primeiros bombardeamentos à capital ucraniana. De facto, o primeiro encontro entre Sean Penn e a sua equipa e Zelensky teve lugar, como se vê no filme, apenas algumas horas após o início da invasão e já no posto de comando das operações militares.
Na conferência de imprensa, Sean Penn elogiou a liderança de Zelensky e a luta do povo ucraniano pela liberdade e falou sobre a sensação que teve ao testemunhar a invasão na primeira pessoa. No que insistiu várias vezes foi na necessidade que os Estados Unidos e os países da NATO têm de enviar para a Ucrânia mísseis de longo alcance e outro armamento, afirmando que qualquer atraso nessa decisão terá como consequências o arrastar do conflito e a perda de mais vítimas. "Vivemos um tempo muito estranho na História quando o ato humanitário mais significativo que pode existir neste momento é o envio deste tipo de armas para um país que está a sofrer uma invasão", disse Penn.
Afirmando não ter interesse nenhum em falar neste momento com Vladimir Putin, Sean Penn descreveu o líder russo como "um pequeno rufia assustador" e um "criminoso de guerra". Ajudar a Ucrânia é, nas palavras de Sean Penn, "estar do lado justo da guerra".
Num festival onde, historicamente, o cinema serve também como testemunho e intervenção no mundo em que vivemos, o documentário é um formato que tem estado em destaque nestes primeiros dias da Berlinale. "Kiss the Future" recorda o cerco a Sarajevo e a forma como um grupo de resistentes conseguiu contactar Bono e os U2 para que estes tivessem uma intervenção a seu favor, o que acabou realmente por acontecer na digressão Zoo TV, que chegou a passar por Lisboa.
O concerto histórico em Sarajevo, apenas alguns dias após o levantamento do cerco, tão histórico e emocional que Bono chegou a perder a voz ocupa ainda uma parte de um documentário que termina com o paralelismo entre esse período negro após o desmantelamento da Jugoslávia e a invasão russa à Ucrânia que vão perfazer um ano na próxima sexta-feira, ainda durante o festival.
Num outro registo, "Joan Baez I Am a Noise" é um emocionante documentário onde a cantora e ativista norte-americana, hoje com 82 anos, faz um balanço da sua vida, não hesitando em abordar os abusos que sofreu do pai, a morte do marido, David Harris, a relação com Bob Dylan, o encontro com Martin Luther King ou a Marcha Sobre Washington, em agosto de 1963. Apesar do mundo não ter evoluído como desejava, o filme mostra-nos uma Joan Baez feliz e feliz consigo própria, ultrapassados todos os problemas psicológicos que também a afetaram e que abordara nas duas obras biográficas que já escreveu.
Entretanto, Susana Nobre apresentou ontem pela primeira vez o seu novo filme, "Cidade Rabat". É o regresso da realizadora à Berlinale, onde já apresentara o filme anterior, "No Táxi de Jack". Passando do documentário à ficção e jogando com as fronteiras ténues entre os dois géneros, centra o seu filme na história de uma mulher de 40 anos, que trabalha na produção de filmes e perde a mãe logo no início do filme, tentando lidar com o luto enquanto gere as suas instáveis relações familiares. O filme foi selecionado para o Fórum e é uma produção da Terratreme, um coletivo a que a realizadora pertence.
