
Ivan Del Val l / Global Imagens
Ainda havia pormenores para afinar no "100% Porto", peça central da celebração do 87.º aniversário do Teatro Rivoli, cuja festa acontece este fim de semana com uma maratona de espetáculos que cruzam dança, teatro, cinema e música.
No ensaio geral do espetáculo que sobe hoje ao palco e que faz de cem portuenses cem atores, ainda se notavam inseguranças, devidamente acompanhadas de instruções vindas do escuro da plateia. "Não podem hesitar tanto", aconselha a direção artística. Houve apenas cinco ensaios e algumas deixas ainda não encaixam.
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Uma centena de moradores representam proporcional e estatisticamente a cidade: 95 são portugueses, três são estrangeiros, dois têm dupla nacionalidade, 3% são analfabetos, 22% vêm de famílias monoparentais e todos pagaram em média 6,77 euros por metro quadrado num contrato de arrendamento em 2017.
O objetivo de "100% Porto" é refletir sobre a cidade e, através dela, também sobre o país e o Mundo. "Aprendemos o que é ser um país na margem da Europa e com um dos poucos governos democráticos", diz Stephan Kaegi, criador que forma com Helgard Haug e Daniel Wetzel o coletivo germano-suíço Rimini Protokoll, responsável pelo projeto "100% City", que já teve versões em cidades como Berlim, São Paulo ou Melbourne.
"Num lugar como a Indonésia, onde 85% da população é muçulmana, uma pergunta sobre sexo antes do casamento tem importância", diz Kaegi ao JN, explicando o conceito da peça.
Geografia social
No Porto, os moradores também vão responder a perguntas. "Acha que Salazar fez algo de bom por Portugal?", "Já fez um aborto?", "Já foi vítima de violência doméstica?", são algumas das questões. Serão também questionados sobre as antigas colónias portuguesas, a integração na União Europeia ou a adoção por casais homossexuais. A partir desta amostra, o coletivo vai traçar um perfil do Porto, situando a cidade numa geografia social, política e pessoal.
Uma cidade que se ama e se critica é uma dualidade não contraditória para estes atores da vida real. E o Porto e os seus problemas não poderiam ficar excluídos deste espetáculo em que se pensa também a vivência urbana.
Fátima Costa, trabalhadora da Junta de Freguesia de Paranhos, deu voz às suas preocupações: "Precisamos de um Porto mais limpo e com mais estacionamento". Mas as ânsias, desejos e inquietações desta centena de moradores não se esgotam nas respostas. Há também direito a desejos expressos em folhas de papel, com a força de um voto na urna. Em "100% Porto", a democracia faz-se no palco.
Sete freguesias, 52 mulheres e 48 homens
O projeto do coletivo germano-suíço Rimini Protokoll junta 100 portuenses, para traçar um perfil demográfico e social do Porto. O espetáculo será um mapa vivo da cidade em palco. Estão proporcionalmente representadas as sete freguesias, com um elenco constituído por 52 mulheres e 48 homens. No grupo não faltam as figuras mais típicas, como o Manuel do Laço ou a Ti Orlanda, proprietária do restaurante Sabores Moçambicanos. Os 100 habitantes vão responder a um conjunto de perguntas que ajudarão a inscrever a cidade no mundo do ponto de vista cultural e social.
