
Pluto, de Manuel Cruz, fizeram vibrar o Porto
Igor Martins / Global Imagens
As noites da ribalta do Porto, com muito rock à mistura, foram relembradas e vividas, este sábado, na Super Bock Arena. O espetáculo foi tomado por Três Tristes Tigres, Clã, GNR, Zen e Pluto. Para o ano pode haver mais.
O Pavilhão Rosa Mota abriu portas para receber um público sedento de ouvir cinco bandas que marcaram e marcam o rock portuense. Diferentes grupos e gerações juntaram-se no mesmo espaço, desde famílias - os pais trouxeram os filhos para conhecer as bandas da sua juventude -, a grupos de amigos, que vieram reviver épocas douradas, ou novos jovens que descobriram pela primeira vez bandas de renome que nunca tinham visto ao vivo.
O entusiasmo esteve evidente em quem ia chegando e esperava ansiosamente pela atuação das suas bandas favoritas, enquanto usufruía da zona da restauração, tal como num festival de verão.
Juventude em marcha
O casal Luísa e Jorge, com o seu filho mais pequeno João, foi ao Rock à Moda do Porto com a pretensão de recordar a juventude.
"Acompanho os GNR desde que era muito adolescente, Pluto já não vejo desde a universidade e Zen também não. Hoje é uma oportunidade de relembrar tudo outra vez", confessa o pai de João. O casal recorda-se das Noites Ritual Rock - o primeiro festival de pop rock nacional que se realizava também no pavilhão Rosa Mota, desde 1992 e teve o seu fim em 2017 -, onde teve a oportunidade de ver a banda Pluto, com Manel Cruz, ou os já desaparecidos Dead Combo. O filho João, por influência dos pais, também já gosta muito de ouvir GNR.
Os Tigres estão modernos
Às 19.30 horas, o espetáculo começou com Três Tristes Tigres, que são recebidos com aplausos e assobios. A banda surpreendeu toda a plateia, que continuava a encher, ao trazer os seus singles mais recentes e estilos diferentes, acompanhados por harpa e uma mesa de DJ, para além das tradicionais guitarra, bateria e voz. Quando a vocalista Ana Deus anuncia que irá cantar singles do álbum "Guia espiritual", que é de 1996, o público ferve e manifesta-se mais.
No fim do concerto, Tiago Cunha revelou ao JN que "foi um choque" ouvir Três Tristes Tigres, considerando que já não os via há muitos anos e vinha com outras expectativas. "Eles amadureceram e misturaram sons a que eu não estava habituado", confessa o fã, que admite não ter acompanhado esta evolução da banda e ainda estar "preso à versão da banda das décadas de 80 e 90". Contudo, considera que "é normal que tragam um som novo, diferente e mais evoluído", em que a harpa e a mesa de efeitos e projeção de imagens mudam totalmente a ideia que tinha da banda.
Tal como referiu ao JN Alexandre Soares, compositor dos Três Tristes Tigres, o novo álbum "Mínimo luz" abrange uma mistura de rock e eletrónica, algo que o fã Tiago Cunha também destacou, referindo que "atualmente até gosto destas misturas entre géneros distintos". Contudo, tanto Tiago como os amigos que o acompanham acusaram o toque da modernidade e estavam à espera de poder reviver mais as músicas antigas e a memória que tinham delas.
Clã fazem subir temperatura
O palco não chegou a arrefecer e logo entraram os Clã, com guitarras, bateria, teclados e também mesa de efeitos. A vocalista Manuela Azevedo não faz uma entrada suave, acendendo logo a plateia, que vai dançando, saltando, completando as letras das músicas e batendo palmas compassadas. Os Clã puxam pelo público e dão-lhes quase lugar no palco, quando Manuela vira o microfone para a plateia, para que os espectadores possam cantar a plenos pulmões.
Não desiludem, deixando um sorriso na cara da vocalista. A pandeireta entra em cena e leva a que amigos e casais dancem e partilhem aquele momento. Para lá de muito rock, músicas mais calmas e baladas surgem também canções do novo álbum "Véspera" e estas são tocadas e cruzadas com temas de Sérgio Godinho e uma música dos Dead Combo. "Corda bamba", "Asas delta" e "O sopro do coração" são as mais festejadas e levam a plateia à loucura, acendendo-se automaticamente lanternas dos telemóveis, e a maioria tira fotos e faz vídeos para mais tarde recordar. Aplaudem sem fim a banda, agradecendo literalmente por aquele espetáculo.
Rafael e Andrea, que são um casal, dançaram durante todo o concerto e admitiram ter sido "o melhor concerto de sempre", acrescentando que as baladas "foram lindas" e "torna-se interessante para os casais". Andrea, de nacionalidade norte-americana, nunca tinha visto os Clã ao vivo, mas já os tinha conhecido pelo YouTube e confessou que não se desiludiu.
Manuel Mendes, que também demonstrou deleite durante o concerto, refere que "foi grandioso, superou imenso as minhas expectativas", tendo adorado ouvir o "O sopro do coração".
A vez dos GNR
Os GNR foram o terceira banda a entrar em palco e assobios e palmas não faltaram para os receber. "Ninguém comeu tripas hoje?", brinca o vocalista Rui Reininho, como referência ao Rock à Moda do Porto. Com a bandeira da Ucrânia exposta num tributo anti-guerra, lembrando o atual conflito entre a Ucrânia e a Rússia, a banda tocou os seus grandes êxitos, levando a uma grande energia do público que canta e dança sem parar. Neste segmento ouviram-se excertos de "Born in the USA", de Bruce Springteen, e "Shaft" de Isaac Hayes, mas com outras roupagens, o que deixa o público curioso.
"Pronúncia do Norte" não poderia deixar de ser tocada e, entretanto, um grande orgulho se levanta no pavilhão Rosa Mota, que entoa a canção do princípio ao fim, erguendo as luminosas lanternas. "Só mais uma", pede a plateia, quando a banda já tinha abandonado o palco. Os três GNR voltam e trazem mais três singles para gáudio dos espectadores.
Na primeira fila, encontrava-se um grupo com camisolas dos GNR vestida e a vibrar com o concerto. É um grupo de Facebook, #SuperfansGNR, marcam encontros para estar presente nos concertos da banda. São fãs que vieram da Covilhã, Maia, Vila Nova de Gaia, Gondomar e marcaram presença na Super Bock Arena.
Cátia Pombo, uma das integrantes do grupo, emocionada, revela ter sido "maravilhoso, pois tivemos muita qualidade aqui". "Efectivamente, cada um gostou mais de músicas diferentes", brinca o grupo com uma das músicas mais célebres dos GNR. Quanto às ironias de Rui Reininho, revelam que torna a banda "irreverente" e "é preciso estar atento para perceber", sendo que os "GNR de concerto para concerto vão alterando as letras".
Zen despertou o público
A noite já ia longa, quando entram Zen em palco e chamam novamente as pessoas ao centro da pista de concertos. Tal como a organização esperava, existiu "circulação de público", em que os interessados em determinas bandas - Três Tristes Tigres, Clã, GNR - vão embora e fica o público que esperava por Zen e Pluto.
Zen não prometeram pouco desde o início e o público vibrou, saltando ao som das músicas e colocando-se às cavalitas em cima dos amigos. O vocalista Rui "Gon" Silva berra "Porto!", interage com o público várias vezes e chega até a atirar-se para a plateia, que o agarra com os braços. O ambiente é de loucura, acompanhado com um rock mais pesado e contínuo. O símbolo gestual dos chifres do rock é feito e a banda é aplaudida pela sua grande prestação.
Pai e filha, Pedro e Luana Peixoto, foram ao Rock à Moda do Porto para ver especificamente Zen e Pluto. Acharam o concerto dos Zen "espetacular" e consideram-no "energia pura", esperando também por um grande concerto dos Pluto. A jovem Luana admite ter sido o pai que lhe passou a febre do rock e que "gosta muito".
Pluto para o grande final
O público não arredou pé e recebeu também em modo vibrante os Pluto. O vocalista Manel Cruz, também fundador da banda Ornatos Violeta, vê-se acompanhado por uma guitarra, tocando com o restante grupo (Peixe, Eduardo e Ruca). São entoados os grandes hits, mas também as "novas antigas", como lhe chamou o vocalista para se referir às que nunca foram gravadas.
Já era 1 hora da manhã e a descarga de energia era notório no público, que aplaudia e gritava "Vai Peixe!", puxando pela banda. Manel Cruz vai trocando de guitarra, adaptando-se a cada tema e, para espanto da plateia, apresenta uma nova música designada "Túnel". Está desvendado que os Pluto, que editaram até agora penas um disco ("Bom dia", 2004) estão a pensar no futuro.
Foi possível observar entre o público que havia fãs que já conheciam bem a banda e entre eles estavam Juliana e Bruno, que os tinham ouvido pela última vez há 12 anos. Admitem estar "desiludidos com a audiência, eles mereciam uma plateia maior", mas que o espetáculo foi "fantástico" e "nos fez voltar ao passado", diz Juliana. "Muita energia e muita alma", acrescenta Bruno.
É por volta das 2 horas da manhã que a primeira edição do festival Rock à Moda do Porto chega ao fim. "Energia", "fantástico" e "espetacular" foram as palavras que mais se ouviram e sentiram nos milhares de pessoas que tiveram presentes nesta noite especial de rock.
A organização já tem os olhos numa 2.ª edição em 2023 e o público agradece, esperando poder ver e relembrar mais bandas do passado que ainda está tão presente.
