
"A tribo" é uma excelente metáfora do mundo de hoje
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Estreado em 2014 mas disponível agora na plataforma Filmin, "A tribo", de Myroslav Slaboshpytskyi, é uma excelente aposta para estes dias.
Numa altura em que a integridade territorial ucraniana está em risco, e por consequência também o seu património cultural, é bom saber que existe um cinema especificamente nacional. Tal não é uma evidência quando, durante cerca de metade do tempo de existência do próprio Cinema, a sua produção foi assimilada pelo centralismo soviético.
Para não ir mais longe, dois dos clássicos incontornáveis do cinema mundial, "O Couraçado Potemkine" e "O Homem da Câmara de Filmar", foram rodados respetivamente em Odessa e Kiev.
Já enquanto país independente, a Ucrânia nunca deixou de nos oferecer um cinema nacional, assinado por nomes como Kira Muratova, nascida em território hoje moldavo, mas tendo feito quase toda a sua obra na Ucrânia, antes de falecer muito cedo, precisamente em Odessa, Oleg Sentsov, preso na Rússia por apoiar resistentes à anexação da Crimeia, ou, entre muitos outros, Sergei Loznitsa, que já filmou em Portugal.
Caso curioso é o de Myroslav Slaboshpytskyi, que assinou em 2014 o arrebatador "A Tribo", que hoje recomendamos, vencedor de um prémio na Semana da Crítica de Cannes, um dos muitos que recebeu, mas ainda não dirigiu mais nenhum filme. Um desses muitos casos de "desaparição", mostrando que por vezes é mais difícil fazer um segundo filme, mas que nos deixa para já este legado.
O filme segue o percurso de um adolescente que acaba de entrar para um internato, percebendo de imediato que tem de estar sob a proteção do líder do gangue local para conseguir sobreviver. De início comprometido com as atividades criminosas do grupo, ganha consciência quando se apaixona por uma colega da escola...
Se acrescentarmos a esta informação o facto de se tratar de uma escola para deficientes auditivos e que os "diálogos" do filme são praticamente todos em linguagem gestual, percebemos desde logo que o realizador se teve de concentrar na dimensão visual do seu filme, o que o faz com enorme segurança e talento.
Depois, pelo seu relato, "A Tribo" é uma metáfora sobre o mundo de hoje, concentrado naquele espaço claustrofóbico, mas também um poema sobre as possibilidades e potencialidades do amor.
"A Tribo"
Myroslav Slaboshpytskyi
Filmin
