
Atores: Yû Aoi e Masahiro Higashide
D. R.
"Mulher de um espião", novo filme de Kiyoshi Kurosawa que esta quinta-feira estreia em Portugal, cruza a invasão da Manchúria com a Segunda Guerra Mundial.
A cinematografia japonesa sempre foi capaz de contribuir com inúmeros autores para a riqueza do cinema mundial e de nos oferecer uma perspetiva sobre a História, fruto também de um século XX, o primeiro do cinema, bastante conturbado do lado do Japão.
"Mulher de um espião", que hoje estreia em sala, cruza as duas vertentes. É o trabalho mais recente de um cineasta bastante prolífero, Kiyoshi Kurosawa - sem ligação familiar com o mestre Akira - e com uma obra reconhecida internacionalmente, o que seria sublinhado com a conquista do Leão de Melhor Realizador em Veneza.
Aliás, não se trata propriamente de uma descoberta, já que são vários os filmes do cineasta que já por cá passaram, como "Sonata de Tóquio", "Rumo à outra margem" ou "O segredo da câmara escura", títulos de uma filmografia que, incluindo obras de TV, ultrapassou já os 50 títulos.
O filme, uma profunda reflexão sobre a mente humana em situações de crise, pessoal ou social, inscreve-se num momento histórico muito relevante. Tem início em 1940, em Kobe, cidade natal de Kiyoshi Kurosawa, numa altura em que as tropas japonesas se encontravam ainda a ocupar a Manchúria e cruza-se com a Segunda Guerra Mundial.
O filme centra-se num comerciante de tecidos que viaja para a Manchúria e, cineasta amador, aí filma as atrocidades cometidas pelos japoneses com experiências "científicas" com cobaias humanas. No regresso, a esposa percebe que poderá ser considerada "mulher de um espião", mas a descoberta das imagens irá levá-la a aceitar partir para os Estados Unidos. O futuro imediato não será no entanto como desejaria....
Entre o suspense do thriller político clássico e a análise do conflito humano de alguém que tem de lidar com a fidelidade matrimonial e a fidelidade à sua pátria, é um filme de uma enorme solidez narrativa, com um impressionante jogo de luz e sombra, como hoje é raro e que tem a curiosidade de ser através de um filme que a personagem central, a "mulher de um espião" descobre uma trágica realidade que desconhecia.
