Carlos Ramos levou ténis português aos quatro cantos do mundo e despediu-se em casa

Carlos Ramos
RODRIGO ANTUNES/LUSA
A final do Estoril Open, este domingo, marcou o adeus de uma das grandes figuras da arbitragem do ténis mundial, o português Carlos Ramos, que se aposenta aos 52 anos.
A despedida do juiz não foi esquecida pela organização do principal torneio português da modalidade, que lhe dedicou uma homenagem depois do encontro que consagrou o norueguês Casper Ruud como o novo vencedor da prova, após derrotar o sérvio Miomir Kecmanovic na final.
"Estou muito grato ao ténis e ao público português. Não podia ter sonhado com uma forma melhor de acabar a minha carreira de árbitro de cadeira. A minha carreira começou em Lisboa, em Portugal, na outra versão do Estoril Open. Era normal que acabasse no Estoril Open. É uma página que se vira, com imensa gratidão e humildade. O ténis e a arbitragem fizeram de mim a pessoa que sou hoje", confessou Carlos Ramos, na ocasião.
O árbitro português é, por mérito próprio, uma figura incontornável do ténis mundial. Foi o primeiro a dirigir a final dos quatro torneios que compõem o Grand Slam - Open da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e Open dos Estados Unidos -, feito que apenas Alison Hughes conseguiu igualar até hoje, e esteve nas finais dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, da Taça Davis e da Fed Cup, a atual Billie Jean King Cup.
Tamanho reconhecimento advém de uma carreira feita de competência e rigor, que não o ilibaram de alguns episódios polémicos.
O maior de todos aconteceu na final feminina do Open dos Estados Unidos em 2018, quando Serena Williams, derrotada por Naomi Osaka, lhe chamou de "mentiroso" e ladrão" após ter sido advertida por ter recebido indicações do seu técnico durante o jogo, algo que não era permitido.
O treinador de Serena chegaria a admitir a infração e a jogadora lá disse que não teve uma postura correta nessa ocasião, mas nunca "perdoou" verdadeiramente o português. "Carlos Ramos? Não sei quem é", comentou quase um ano depois daquele episódio, que ditou o afastamento do juiz natural de Lisboa dos encontros em que estivessem em ação alguma das irmãs Williams.
Com efeito, em 2016 já havia acontecido uma situação semelhante com Venus Williams, em Roland Garros. No ano seguinte, no Estoril, Richard Gasquet também discordou de uma advertência idêntica de Ramos, considerando-a "desrespeitosa", e nem os consagrados Nick Kyrgios, Andy Murray, Rafael Nadal ou Novak Djokovic escaparam ao rigor do árbitro português, fosse pelas atitudes em court ou pela gestão do tempo disponível para servir.
Mais recentemente, em 2019, o canadiano Denis Shapovalov ameaçou abandonar um encontro e "exigiu" que o juiz descesse da cadeira para verificar a marca de uma bola na terra batida de Lyon, onde o português está radicado, mas Carlos Ramos não cedeu e fez prevalecer, com diplomacia, a sua decisão.
Aliás, essa será uma das suas virtudes. A todas as polémicas que enfrentou, Carlos Ramos procurou responder com equilíbrio e ponderação. Por exemplo, viu o episódio com Serena Williams como "uma situação chata", sem deixar de sublinhar que "a arbitragem "à la carte" não existe". Empatia e profissionalismo numa resposta curta, mas inequívoca, características que um árbitro deve cultivar.
"Carlos fez chegar o ténis português a todos os cantos do mundo. É considerado um dos melhores do mundo", elogiou a Federação Portuguesa de Ténis. Afinal, foram 32 anos de uma carreira ímpar, que colocam Carlos Ramos num patamar proeminente na história da modalidade.
