
Metade dos casos de agressão a árbitros relatados na época em curso ocorreram nas últimas seis semanas
Pedro Correia/Global Imagens
Ofensas corporais a árbitros explodem nas últimas semanas em jogos de futebol e futsal. APAF apela ao reforço da segurança.
A fase final da época 2021/22 fica marcada por um recrudescimento de casos de agressões a árbitros em jogos de futebol e de futsal em Portugal, sobretudo a nível distrital. Segundo números fornecidos pela APAF (Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol) ao JN, registaram-se 10 ocorrências de ofensas corporais a juízes no último mês e meio, precisamente metade das que foram relatadas desde o início da temporada em curso. Estes números apenas dizem respeito a árbitros que apresentaram queixa formal, porque muitos não o fazem por receio de possíveis consequências.
O aumento da violência, praticada por adeptos, dirigentes e jogadores, leva a que os casos se aproximem dos valores pré-pandemia, depois de os números terem baixado nas duas épocas anteriores, sendo que, entre março de 2020 e agosto de 2021, os jogos foram à porta fechada.
"Não se pode dissociar estes números do ambiente social que estamos a viver, com uma pandemia que privou as pessoas de algumas liberdades, e agora com uma guerra na Europa que gera muita incerteza. O aumento do custo de vida e dos combustíveis leva a que as pessoas andem mais crispadas. Isso nota-se no dia a dia, no trânsito, por exemplo, e é normal que também se note nos espetáculos desportivos. Existem dados sobre o aumento do número de pessoas que procuram a ajuda de profissionais da área da saúde mental e também sobre a compra de mais medicamentos para a ansiedade", afirma Jorge Silvério, especialista em psicologia do desporto.
E como se combate este fenómeno? "As autoridades têm de estar atentas para aplicar a lei. Da parte de quem organiza as competições, não há varinhas mágicas. Algumas iniciativas que têm sido tomadas, como o cartão branco, só trarão resultados a médio e a longo prazo", responde o psicólogo, numa opinião que vai ao encontro do sentimento reinante na APAF.
Sérgio Mendes, membro do contencioso da associação de árbitros, revela que "há jogos a decorrer sem policiamento, o que dificulta a responsabilização" e que "a justiça civil nem sempre é aplicada de forma célere", havendo casos de "sentenças de processos de 2017 proferidas em 2021", sem esquecer as "indemnizações por danos patrimoniais e despesas hospitalares que não chegam a ser pagas pelos agressores".
Quanto à justiça desportiva, "varia de associação para associação", havendo "regulamentos que punem as agressões com meses de suspensão". Ou seja, quem comete uma agressão no fim do campeonato, fica apto a desempenhar funções nas primeiras jornadas da época seguinte".
Casos recentes
A. F. Porto S. Lourenço-S. Pedro da Cova: interrupção, soco e empurrão
A 30 de março, o jogo da Taça AF Porto entre o São Lourenço do Douro e o São Pedro da Cova 1937 foi interrompido, aos 60 minutos, porque o árbitro Ricardo Carriço sentiu que, sem policiamento no campo, não havia condições de segurança para continuar. Quando voltava aos balneários, o juiz foi agredido com um murro e empurrado nas escadas, num episódio descrito pelo clube da casa como de "extrema violência". O presidente dos visitantes, Vítor Catão, foi alegadamente o agressor e está suspenso.
A. F. Lisboa Pregança-Salesiana Estoril: dois cartões e murro ao juiz
No dia 26 de março, o jogo entre o Pregança e o Salesiana Estoril, da 1.ª Divisão da AF Lisboa de futsal, ficou marcado por cenas lamentáveis que envolveram o capitão da visitante, Francisco Vaz, e o árbitro da partida, André Cardoso. Depois de ser sancionado com uma falta, o jogador viu um cartão amarelo e logo a seguir um vermelho, partindo depois para uma agressão violenta ao juiz, atingindo-o na cara com um soco. Francisco Vaz acabou mesmo por ser detido pelas autoridades presentes no pavilhão.
A. F. Porto S. Félix-Senhora da Hora: discussão precede ato violento
A 13 de março, o jogo da 23.ª jornada da 1.ª Divisão da A. F. Porto entre o São Félix da Marinha e o Senhora da Hora foi interrompido devido a uma agressão de um jogador da equipa visitante ao árbitro André Gomes. Baresi, defesa do Senhora da Hora, foi mesmo detido e no dia seguinte apresentado a tribunal. O juiz, que já não retomou a partida, recebeu tratamento hospitalar. A agressão foi precedida de um cartão vermelho mostrado pelo árbitro ao jogador e de uma discussão entre os dois.
Liga 2 Estrela da Amadora-Benfica B: pontapés no acesso ao balneário
No final de novembro do ano passado, o árbitro Miguel Nogueira relatou ao Conselho de Arbitragem (CA) da FPF a existência de agressões no jogo entre o Estrela da Amadora e o Benfica B, a contar para a 12.ª jornada da Liga 2. Segundo o CA, os incidentes ocorreram no corredor de acesso aos balneários do Estádio José Gomes, na Reboleira, onde a equipa de arbitragem foi pontapeada. Um dos responsáveis pela agressão, ligado ao clube da Amadora, acabou identificado pelas forças de segurança presentes no local.
