Da Vila Nova até à Foz, povo espraiou-se na estrada a ver passar os roncantes. Há velhinhas com carta, adeptos do despiste, famílias de Flandria, uma surfista polaca e um tipo que é um ponto chamado Crispim.
Eva da Assunção, Maria de Lurdes dos Santos, Aurora de Jesus: as três somadas de idade dá 248 anos - mas elas, as três viuvas da Biquinha, ainda estão ali para as curvas.
Eva, 84 anos, carta tirada desde 1959. "Acidentes? Nunca! Multas? Ui!, uma só, muito lá atrás, tinha a carta acabadinha de tirar, foi no Algarve, foi de ir sem cinto. Nunca mais".
Maria de Lurdes dos Santos ("dos Santos e Mourão, ponha aí, era o apelido do meu falecido"), 79 anos. "Carta? Não senhor. Carta só quando me escrevem".
Aurora de Jesus ("é, o meu nome é pequeno"), 85 anos: "Carta? Fiiiuuu. Sou descartada. Mas ando muito bem de pernas, obrigado, as pernas é que são o meu carro".
Estamos na curva da Vila Nova, estrada da Circunvalação, de frente para o Teatro vermelho da Vilarinha, há povo e polícias espalhados na pista, as viuvinhas estão no terraço, sentadas na fresca, a tretar, a vê-los passar. Eva conta a história extraordinária de uma galinha, "uma que já pôs dois ovos em matrioska. É verdade, saiu um dentro do outro, como nas bonecas russas. Foi há muitos anos, ui, ainda o Mário Soares era presidente. Mas foi um inédito, foi, até cá veio o JN. Foi pena foi que me trocaram o nome. Sou Eva, mas eles escreveram Ana".
O céu está africano, é um calor encoberto, choveu sem limpar, a pista molhada. Por ali abaixo há-de haver acidentes.
Crispim abre na curva, chega a esbracejar. Dá um passo à frente e estanca. Dá um passo a trás, desanda, anda como quem navega, balança. É a alegria graduada dali, Crispim, 42 anos, incita o povo, são muitos os da borla, alinhados atrás das grades, cada nesga é um posto para os ver a roncar. "Sei sim senhor. Foram dois acidentes. E ontem houve quatro! Quatro estampados. Não vi não senhor, mas porquê, está a duvidar?!"
Crispim oscila na festa. Pois que sim, pois que tal, há carros, crianças, é bonito, mas ele está apertado na reclamação. "É, vai escrever? Pois olhe, aqui-não-há-casas-de-banho-porquê?", pergunta ele a subir, como quem vai a sublinhar. "Mas o que é que um homem tem que fazer aqui para mijar?". É bem visto, Crispim, pois não há, mas olhe lá, isto aqui está cheio de plátanos... "Pois está!, mas o que é que você está a dizer, quer que eu me vá aviar para a árvore? Então não está a ver isto aqui cheio de gente?!".
Aguenta, Crispim, aguenta, vieste cá todos os dias e amanhã ainda vais voltar. "Pois é, amanhã [hoje] cá estou outra vez. Eu sei, é segunda, já não há corridas, mas eu venho para limpar. Sou varredor. Pego às 5. Pois sim, cinco da manhã! Ou queria que se começasse a limpar só à tarde?! Era bom!". E Crispim vai, apertado, os braços a dar a dar.
Caminha-se ali debaixo dos plátanos, o sol abriu, há brisa, voam as folhas estreladas do Canadá. Por ali descem muitos aos pares, mão na mão, é um passeio prometido, é domingo, correm carrinhos com crianças. Anda-se, pára-se, espreita-se a pista. Do lado de lá há poleiros, muros mais altos, enchem terraços, varandas, metem-se 11 em cima da casa do n.º 15061, cantam todos, castiços, cerveja na mão, "cantare, oh, oh, oh, oh", cantam e voam, "volare, oh, oh, oh, oh".
O povo cresce na estrada, é como no S. João, descemos, estamos na recta, aquela boa, antes do S da meta. O asfalto está branco, alto, aqui houve confusão.
Ana Reisinho ("Reisinho, é como um rei pequenininho") confirma. "Sim, um carro bateu. Tá a ver o pó banco? Foi ali. Vinha de cima a assapar. E bateu". Ana, dois meios malmequeres pequeninos pintados nas unhas dos pés, namora com Márcio. Ele é mecânico, explica: "Era um Alfa 147, vinha a fundo, entrou na curva a abrir, a traseira fugiu, desandou-se todo. Bateu primeiro no betão, depois de frente nos rails, rodou e outra vez no betão. Sim, assim em ziguezague. E quando parou deflagrou. Extintores automáticos. Uma fumarada".
Quando aconteceu, a Ana, que é formadora e mora na Senhora da Hora, correu por ali abaixo a ver tudo. "Ui, adoro acidentes. É uma adrenalina, o coração sai assim a mil à hora. Até me arrepio toda, não sei o que é, não sei explicar, mas sinto que me percorre um frio fininho. Ui".
Passam máquinas de um lado, pessoas do outro, zumbidos por todo o lado, os helicópteros riscam o ar, o céu está crepuscular.
É a descer, ali já há bancadas, estão meias vazias - há muito mais povo a ver a festa do lado de fora, a espreitar, sem pagar -, os carros vão partir para a última volta. São grandes e coruscantes, os carros, falta um minuto, soa a sirene. Eles ronronam, ronronam, arrancam, sai um chiado, é um zurro, e cresce, barulheira.
"Assim não dá para conversar", diz Maria do Céu de cima da bicicleta. É ela que lidera o trio, montada numa bela Flandria da cor do tijolo, guiador erguido. Vem com o Paulo Monteiro, o marido, é professor de educação visual, guia uma Altis, à ciclista, com aqueles guiadores com pegas de enrolar, vem ainda a filha, a Renata, tem 14, ela guia uma pasteleira, de cestinho, quer ser engenheira de agronomia.
Vieram dali perto, de Ramalde, três bicicletas de domingo, descem a arejar. É a Maria do Céu, administrativa, que explica do que é que o povo gosta: "Olhe, é como na tourada. Na tourada, o povo gosta é quando se vira o touro. Aqui é quando batem os carros. É assim. Se for só carros a passar, a passar, não tem piada nenhuma. Quando eles batem, sempre traz alguma animação. Desde que ninguém se magoe, é muito mais espectacular. Quer quer?, somos assim. Gostamos do inesperado. E da tragédia. Somos portugueses, não somos?". Somos e estamos aqui fechados num muro de som, com os carros a zarpar.
Já estamos na anémona, chegamos à Foz, abriu-se por fim o sol, ela flutua, imensa, a anémona, as imensas estrias de rede a adejar, o vento que vai e que vem, ela voa em câmara lenta. Ali ao lado há duas bancadas: a VIP está a apinhar; a outra, a Azul 06, a dos pagantes, está quase vazia de gente.
Ao fundo é o passeio da marginal de Matosinhos, ali há mesmo muita gente a passear, autênticas corridas com carrinhos de bebés, mais ao fundo é o o mar, há pares dispersos na areia, são os tardios, não querem saber se não do amor.
Vamos ao mar, pairam gaivotas, há surfistas a passar, eles andam, as pranchas que pendem deixam riscos na areia. Passa Gonçalo Mariani, passa Renata Baczynska. Ele é o professor de surf, ela é uma polaca Erasmus, os dois de costas para os carros. "Carros? Nós só queremos é o mar", atira o Gonçalo, a tiritar. "Já ouviu o barulho das ondas? Ouça, ouça mesmo. Agora imagine que está lá dentro. É ou não é muito melhor?".
