Farioli emociona-se ao recordar Jorge Costa: "Sente-se a presença dele em todo o lado"

Francesco Farioli não escondeu as lágrimas ao recordar Jorge Costa
Foto: Leonel de Castro
O treinador do F. C. Porto, Francesco Farioli, não escondeu as lágrimas ao recordar Jorge Costa, diretor para o futebol profissional dos dragões que faleceu em agosto do ano passado. Na entrevista a "O Jogo", o técnico italiano abordou a relação com o presidente André Villas-Boas, com quem poucas vezes fala de tática mas que já lhe deu uma sugestão sobre bolas paradas defensivas, e comentou a evolução de alguns dos principais jogadores do plantel portista.
Como é a sua relação com o presidente André Villas-Boas? Ele evita ou gosta de falar de futebol consigo?
É uma situação muito estranha. Ele tem, de longe, o maior conhecimento de futebol de qualquer diretor ou presidente. O que ele fez na carreira como treinador fala por si. Curiosamente, é a pessoa com quem falo menos sobre tática. Na nossa primeira reunião, eu preparei coisas para mostrar, mas ele já sabia tudo. Falámos mais sobre a situação, o ambiente, como gerir as coisas. A primeira vez que abri o computador para lhe mostrar alguma coisa foi já aqui no Dragão. Ele respeita muito o trabalho. A nossa comunicação é muito aberta e direta. Ele está muito presente no Olival, uma ou duas vezes por semana. No dia antes do jogo ele aparece sempre, cumprimenta todos com uma energia importante. Não podia pedir um presidente melhor ou mais presente. Trocamos mensagens à noite ou às 6 da manhã, quando acordo, já tenho uma mensagem dele a falar de um jogador ou de como fazer as coisas melhor. Eu vim com o rótulo de ser um treinador que trabalha muito, mas aqui encontrei pessoas que trabalham o mesmo ou mais, como o presidente e o Tiago [Madureira] e o Henrique [Monteiro]. Sabemos para onde queremos ir. A melhor forma de liderar é pelo exemplo.
Ele tem a tentação de lhe dar opiniões sobre a prestação da equipa?
Falamos sobre o desempenho, sensações, o que melhorar. Sou uma pessoa que gosta de ouvir e receber feedback. Um exemplo: numa das primeiras reuniões, o presidente disse-me que, para ele, o Samu não podia defender no primeiro poste em marcação zonal no canto. Eu fui analisar, aceitei o conselho e, como sabem, o Samu nunca mais esteve lá. Quando acreditas nas pessoas e tens fé no que te dizem, isso ajuda a acelerar o processo. Gosto de criar um ambiente colaborativo e de ouvir conselhos.
Já falou de renovação de contrato com o presidente?
Não. Agora a prioridade é fazer as coisas bem pela equipa. É a primeira vez na minha curta carreira que sinto que posso construir algo em cima de algo. No ano passado sentia que era impossível lidar com as exigências, mas aqui temos uma equipa jovem, um capitão [Diogo Costa] que renovou recentemente e é um líder e profissional de topo, jogadores do F. C. Porto B que podem ajudar... estamos no caminho certo. Continuar a trabalhar juntos e continuar conectados com o próximo passo que é o Algarve com uma semana de bom trabalho. Os jogadores não ficarão satisfeitos com algum trabalho extra. Queremos fazer uma boa época e fazer os nossos adeptos felizes.
Como é que mantém viva a presença de Jorge Costa no dia a dia do plantel?
Embora, infelizmente, não tenha tido muito tempo com ele, o que o Jorge foi, é e será para o F. C. porto é muito claro. Sente-se a presença dele em todo o lado. O legado dele estará sempre aqui, não apenas na camisola número 2, mas na forma de ser e de se comportar. O tributo que o futebol português e internacional lhe deu diz tudo sobre um capitão eterno. No dia 31 de dezembro, estava em casa a ver as imagens da minha apresentação e o Jorge estava em quase todas as imagens, a tentar ajudar-me e a passar-me o que é o F. C. Porto. Ele falava-me da mentalidade de trabalho, da ligação com a cidade, que suar a camisola é inegociável. Ele estava connosco todos os dias nos treinos, a ver os jogadores a sofrer, quase a vomitar no relvado. É por isso que ele continua connosco. Depois do jogo com o Atlético de Madrid, ele disse algo ao Tiago Madureira e ao Henrique Monteiro, que me contaram no dia em que tudo aconteceu: Ele disse: "temos uma equipa outra vez". Este é o nosso slogan, o nosso compromisso e responsabilidade pela memória do Jorge. Haverá sempre uma bandeira no Dragão para o manter connosco. Pela sua família e pela família portista. Ele estará sempre connosco. A luta pelo título é também por ele.
Carreira de Mora vai ser fantástica
O F. C. Porto tem a melhor defesa do campeonato. A dupla Bednarek-Kiwior tem sido fundamental?
O registo defensivo é impressionante. Mas não é só porque defendemos bem, é porque atacamos de uma certa forma que requer paciência e eficiência técnica. A coordenação e o sincronismo entre os jogadores é a chave. Esta estabilidade resulta também da forma como atacamos. Neste jogo com o Santa Clara, nos últimos minutos quando ficou mais aberto e defendemos mais na área, a atitude do Bednarek e do Kiwior foi importante e será assim no futuro também com o Thiago. No avião, estava a rever uma das poucas chances que concedemos e vi o Borja e o Deniz Gul a atirarem-se para parar a bola e quatro ou cinco jogadores a colocarem o corpo à frente da baliza. Esse esforço e sacrifício são elementos chave porque um golo a mais ou a menos pode fazer a diferença.
Thiago Silva já chegou. Pelo palmarés que tem receia que ele possa criar ruído numa estabilidade defensiva que já existe?
Não, ele vai acrescentar experiência e qualidade. Acredito na gestão do jogo, misturar os recursos físicos e mentais. Ninguém discute o palmarés do Thiago. Ele não estaria aqui se os seus últimos jogos não fossem de alto nível. Na nossa conversa, ele provou que vem para ajudar e apoiar a equipa. Não lhe fiz qualquer promessa, quero que ajude a equipa quer jogue todos os jogos ou cinco minutos. Ele está consciente disso. Ele quer fechar um ciclo porque começou a sua carreira europeia aqui no F. C. Porto B e ganhou a Liga dos Campeões aqui no Dragão [com o Chelsea]. Ele tem o grande objetivo de jogar o Mundial no verão e estar em forma. Quando o vi pela primeira vez, ontem [domingo] vi nele um grande sorriso e energia. É o que precisamos, curioso para começar a trabalhar com um jogador que é um dos top 5 defesas na história do futebol.
Samu cresceu muito, sobretudo na forma como liga com a equipa. Em que fase está esse trabalho?
Ele está a melhorar muito graças à sua mentalidade e compromisso. No início tivemos dificuldades em fazê-lo sentir os benefícios do que estávamos a fazer. O Samu é incrível a atacar o espaço e na área já é um avançado de elite. Mas para uma equipa dominante, havia coisas que ele precisava de melhorar. Ele entendeu o benefício, o que o tornará um avançado mais completo. No futuro, ele pode jogar nas três melhores equipas do mundo. Ter estas ambições é preciso melhorar e trabalhar. Ele está aberto a isso, aceita o trabalho individual que talvez seja feito com os sub-13, isso requer humildade e autoconsciência. Surpreendeu-me nisso. Trabalha muito bem, está melhor fisicamente. Ele pressiona como uma besta, corre para trás quando é necessário. Quero mencionar também a importância do Luuk, com a sua experiência conversou muito com ele, explicou coisas. Tem tido um papel especial e em 2026 poderá melhorar.
Froholdt ainda o surpreende?
Eu não o conhecia. O presidente e o departamento de prospeção mencionaram-no, vi alguns jogos e fiquei impressionado. Mas vê-lo ao vivo e ver a sua capacidade de se desenvolver tão rápido superou as minhas expectativas. Feliz com a sua evolução, está a crescer em liderança. Nunca esquecerei o primeiro jogo dele no Dragão quando saiu e o estádio todo o aplaudiu. Ele tem o ADN puro do F. C. Porto.
Rodrigo Mora cresceu como homem e jogador depois de uma fase difícil no início da época onde se falava da sua saída?
O Rodrigo foi outra surpresa positiva. Na época passada ele era o "Golden Boy", a superestrela. Fez coisas irreais para um jogador da idade dele. Esta época, com novos jogadores e uma nova forma de jogar, exigiu adaptação. Foi difícil para todos e percebeu o que se passava. Iniciou esta época com o estatuto de superestrela, mas não teve um papel principal. Sabemos o que se passou no mercado, os rumores da Arábia Saudita e as quantias envolvidas para o clube e para ele. Mas no final fomos muito claros um com o outro. Chegámos a um acordo sobre como devíamos fazer as coisas. O meu papel é trazer as pessoas juntas para o bem do clube. Idealmente queres ter 25 jogadores como soldados na mesma linha e direção, é o sonho de qualquer treinador., O difícil é encontrar jogadores capazes de aceitar decisões, o seu papel e desenvolver em áreas onde são mais fracos. Não é algo que se progrida do 0 ao 100 de um dia para o outro. O nível dele no treino é fantástico, nunca faz má cara, aceita jogar poucos minutos ou começar a titular. O impacto dele nos últimos jogos foi fantástico. A palavra para ele é maturidade. Sabe o que pretende e o que necessita melhorar. Quase que não precisámos de lhe mostrar os vídeos de resumo dos seus jogos porque ele faz isso em casa e partilha com o meu staff. E analisa com os nossos filtros. Estou grato e orgulhoso por ter um jogador desta qualidade que se coloca ao serviço do clube e a responsabilidade de ter um dos maiores talentos portugueses que quer fazer algo especial pelo F. C. Porto. A carreira dele vai ser fantástica. Tem a ambição de celebrar títulos aqui.
