
Francesco Farioli lembra que ainda não conquistou nada no F. C. Porto
Foto: Leonel de Castro
O treinador do F. C. Porto, Francesco Farioli, deu uma entrevista a "O Jogo", onde aborda variadíssimos temas da atualidade, com destaque para a extraordinária primeira volta realizada pelos dragões no campeonato. Com 16 vitórias e apenas um empate em 17 jornadas, o técnico italiano garante que ainda "não há nada para celebrar" e admite que "não é fácil" ser árbitro em Portugal.
Já se sente em casa no Dragão?
Sim, com certeza. O meu primeiro jogo no estádio, há alguns anos, contra o Inter, estava sentado aqui perto. É bom estar também nesta parte do estádio, ter uma perspetiva diferente, mas com certeza é um lugar onde me sinto em casa.
Como se explica a energia dos adeptos e do Dragão?
Quando estás aqui no estádio, a energia, o ruído e o apoio são sempre fantásticos. Mas, especialmente, acho que sentes a paixão pelo futebol e, sobretudo, pelo clube quando caminhas na rua, se estás num restaurante... Vês como as pessoas se comprometem com o clube e fazem-te sentir realmente a importância do que estamos a fazer, a responsabilidade. E esse é, acho eu, o melhor sentimento e o melhor privilégio.
Costuma ter a família na bancada?
A minha mulher, a minha filha e o meu filho estão sempre aqui. Especialmente a minha filha, que é uma verdadeira portista. Agora ela diz a toda a hora: "La familia Portista, la familia Portista". É engraçado porque ela repete isso; se perguntares quem somos, ela responde: "La familia Portista". É algo profundo. Em casa temos o canal do Porto no youtube ligado quase 12 horas por dia, ela já sabe todos os cânticos e hinos, as músicas que os adeptos cantam. É uma imersão total, o que é um sentimento ótimo.
Já canta a música do míster Farioli?
Sim, já começou na época passada. Mudou rapidamente para as músicas do F. C. Porto.
Quais são os critérios para se pertencer à "Família Portista"
Mencionei isto na minha primeira conferência de imprensa sobre a primeira reunião que tive com o presidente [André Villas-Boas], ele partilhou comigo os valores do clube, o que ele sentia que era importante trazer de volta. Basicamente, falamos de trabalho árduo, dedicação, compromisso, paixão, o desejo de colocar bravura e coragem no campo. São elementos que fazem parte de quem eu sou e do futebol que gosto de ver. Senti imediatamente que este era o passo certo para mim. Já passaram seis meses, muitas coisas aconteceram, mas o sentimento é de me sentir em casa muito rápido.
Qual é o seu estilo de liderança? É pelo grito, pela conversa, pela partilha?
Acho que tens de ser quem és. Desde que comecei, sempre disse que era muito jovem - e ainda sou, mas há cinco anos ainda mais. Agora temos um jogador que é mais velho do que eu [Thiago Silva], mas tem sido a minha rotina trabalhar com pessoas mais velhas. Acredito muito em ser eu próprio. Não sou bom a esconder emoções ou a usar uma máscara. As pessoas veem como me sinto. A minha liderança baseia-se em elementos não negociáveis: os elementos que fizeram o F. C. Porto ser o F. C. Porto. Sou uma pessoa direta. Se há algo que não gosto, tento ir pelo bom caminho primeiro, se não for suficiente, procuramos outras opções. Se construires a relação com honestidade e transparência, os jogadores apreciam isso muito mais do que um sorriso ou uma palmada nas costas.
Quando chegou fez mudanças estruturais no Olival e na sua primeira palestra, falou de uma época difícil para o F. C. Porto no ano passado e também um ano difícil para si [no Ajax]. Essas feridas promoveu um casamento perfeito de vontades?
Perfeito não sei, veremos daqui a uns tempos, mas com certeza foi especial. Na primeira reunião com o presidente, conectamos imediatamente. As últimas épocas do F. C. Porto não foram as mais fáceis, e do meu lado, eu vinha de uma época que, na minha opinião, foi positiva, mas com algo difícil de descrever no último mês. A dor do que aconteceu no último mês [no Ajax] ficará comigo para sempre. A frio, refleti muito, analisei e tentei encontrar respostas. Às vezes tens de aceitar e não questionar tanto. Mas aprendi. No F. C. Porto, as minhas primeiras palavras para a equipa foram claras: falamos sobre as "cicatrizes" que tínhamos. Não é algo para ter vergonha, mas algo para ter na pele como memória, para entender que faz parte da vida e do desporto. Tem de ser uma motivação extra, o combustível para a nossa fome constante de melhorar.
Tanto no Nice como no Ajax teve o melhor registo defensivo. Há uns tempos, Cristiano Bacci disse que o Farioli não era um treinador italiano. Considera-se um treinador italiano?
Acho que é uma mistura de experiências. Cada país tem o seu selo, mas eu viajei por tantos países e treinei em tantas ligas diferentes que me tornei um "globetrotter". O meu staff vem de todo o mundo. Somos um staff realmente internacional. Vejo isso como uma força. Temos culturas e línguas diferentes, mas ganhamos por ter abordagens e sensibilidades diferentes. Isso torna-nos um grupo mais completo e complementar. Conto-lhe uma história: no meu primeiro clube, na negociação, propuseram-me um valor para mim e para trazer um assistente. Decidi não receber nem um euro no meu primeiro trabalho e dividir esse montante para trazer cinco ou seis pessoas comigo. Isso diz o suficiente sobre o quanto o staff pode afetar e impactar. O trabalho que o staff técnico, de performance, médico e de apoio está a fazer aqui é inacreditável. Para ter sucesso, muitas coisas têm de estar alinhadas e todos têm o seu contributo. Desde o Jardel [roupeiro], que é tão enérgico e apaixonado, até ao presidente.
As contas da Liga e a arbitragem
O F. C. Porto tem uma vantagem de sete pontos para um rival, dez para outro. O maior risco é as pessoas olharem para a vantagem como definitiva?
Não, acho que o apoio que recebemos no aeroporto antes de partirmos para os Açores e quando voltamos. não é sobre celebrar algo, é sobre dar-nos o impulso certo. É um lembrete das "cicatrizes" que todos temos. Não sinto que haja uma celebração antecipada. Todos sabemos para onde queremos ir e estamos todos ligados. O entusiasmo e a adrenalina na cidade é algo que temos de fazer crescer e tornar especial. Os nossos adeptos estão a fazer um trabalho fantástico no Dragão e fora.
José Mourinho [Benfica] falou de uma primeira volta anormal do F. C. Porto. Rui Borges [Sporting] também falou do mérito do F. C. Porto. Como recebe estes elogios?
As palavras de Mourinho são factos, o que estamos a fazer é especial. Mas os recordes de meio de época não dão troféus. O que está feito, está feito. Não há nada para celebrar. Agora olhamos para o futuro. Janeiro será um mês muito importante: um jogo de Taça, um clássico aqui em casa a eliminar, jogos importantes na Liga onde não podemos vacilar, porque mesmo com um trajeto extraordinário tudo está em aberto. Os rivais estão aí e vão competir até ao fim. E dois jogos cruciais na Liga Europa. O objetivo é ficar no top 8 para evitar o playoff num calendário apertado. Temos muito trabalho e não há tempo para auto-celebrações. Vamos para o Algarve para trabalhar a condição física, refrescar a mente e estar com as famílias. "La familia portista" são os adeptos, os jogadores, mas também as pessoas que estão connosco diariamente e esperam por nós em casa.
Que opinião tem destes dois rivais?
São dois grandes treinadores. Rui Borges é o atual campeão, o trabalho que fizeram na liga e na Europa é ótimo. E sobre Mourinho, ele é uma das principais referências para qualquer treinador de futebol. O número de títulos que ganhou, como mudou o futebol, a sua capacidade de reinventar o jogo e o seu impacto na indústria... ele é e será sempre um dos melhores do mundo.
Já disse que o clima está a tornar-se insustentável nas arbitragens. Receia que a segunda volta possa ser pior? O problema são os árbitros ou o ruído dos grandes?
É um tema. Nas minhas experiências anteriores criei anticorpos porque em Itália os árbitros são sempre um tema quente e na Turquia podem imaginar o que acontece. Em quase 200 jogos como treinador principal, tive dois ou três cartões amarelos. Respeito os árbitros e recebo respeito deles. Mas em Portugal é um tema desde o primeiro dia. Vi nas redes sociais, a Supertaça... Já disse que que é responsabilidade de todos baixar o tom. Isso terá de acontecer com decisões a vários níveis. Não é possível que assim que o jogo acaba haja logo dois ou três programas de TV a analisar o árbitro em vez do jogo. Nos jornais há páginas e páginas com análises de árbitros. Num país com tão bons jogadores, treinadores e equipas seria bom falar mais de futebol. Todos queremos justiça na competição. Sobre o VAR, acho que se tornou um instrumento para julgar o árbitro em vez de o ajudar e de tornar o jogo com menos erros. Em vez de facilitar a vida dos árbitros, estamos a criar "monstros" e pânico sobre cada decisão. O jogo está cada vez mais rápido, há ações a 37-38 km/h, não é fácil estar lá. O sistema (árbitro, assistentes, VAR) deve servir para minimizar erros e ter uma competição honesta.
Em Portugal é possível ganhar sem falar de arbitragem?
Vamos desejar que isso aconteça. Mas há casos difíceis de compreender. Dou um exemplo: num dos últimos jogos no Dragão, houve uma ação do Pepê que foi falta fora da área, mas na realidade foi dentro. Fui ao quarto árbitro e disse: "Vai ao VAR, porque se é falta, é dentro e é penálti; se não é falta, é falta contra nós e amarelo para o Pepê". Sem problema. Não posso aceitar um livre direto fora da área quando todos viram que a falta foi dentro. Prefiro o cartão amarelo contra nós do que um erro destes. Justiça é isto.
Erros resultam da qualidade ou do condicionamento?
São muitas coisas, não é fácil ser árbitro em Portugal, a pressão é demasiado alta. Já tenho muito para fazer como treinador e não é esse o meu trabalho. Mas o VAR, não apenas em Portugal, deve ser discutido e usado de forma diferente. É libertar a pressão no sistema e ter mais justiça e uma competição mais honesta.
