
Muitos jovens em Portugal já são procurados por agentes e marcas desportivas
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Muitos futebolistas de 14 e 15 anos são representados por empresários e até patrocinados por marcas desportivas.
O cenário empresarial no futebol entra na vida dos jogadores cada vez mais cedo. Muitos jovens dos 10 aos 15 anos já são agenciados por empresários e, em alguns casos, até patrocinados por grandes marcas desportivas.
Os agentes garantem a representação dos futebolistas em idades precoces, de forma a evitarem a concorrência e tendo em mente a rentabilização do sucesso ao alto nível. Os empresários também ajudam os atletas nas escolhas desportivas, acompanham-nos aos jogos longe de casa e até comparticipam em exames médicos ou requisitam trabalhos com preparadores físicos especializados. Auxiliam ainda os pais a gerirem a carreira dos filhos, até porque muitos deles olham para os descendentes como uma garantia de futuro.
O contexto familiar que certos jogadores vivem fá-los, por vezes, querer desistir do futebol e esta vontade acentuou-se durante a pandemia devido à interrupção dos treinos. Perante estas situações, os agentes também procuram motivar os futebolistas e, em certas ocasiões, "até intervêm na sua educação", segundo revelou o agente Sérgio Leite, ao JN. No entanto, um contrato de representação entre agente e jogador, que tem de ser assinado também pelos pais, não tem validade legal em idades inferiores a 16 anos. "Alguns agentes guardam esses contratos e não os registam na Federação Portuguesa de Futebol, o que por norma cria litígios quando o jogador quer mudar de empresário", revelou Sérgio Leite.
Atualmente, as grandes marcas desportivas procuram patrocinar os jogadores desde cedo e entre eles surgem Gonçalo Moreira (Benfica), Rodrigo Mora (F. C. Porto) e Gabriel Silva (Sporting), o primeiro deles com 15 anos, os outros dois com 14. Basta ver as redes sociais dos três para perceber como aproveitam os milhares de seguidores para divulgarem o material desportivo das marcas. Muitas delas observam os jogadores adolescentes para avaliarem as suas capacidades; outras medem as interações nas redes sociais.
Em troca, as marcas oferecem anualmente material desportivo até um determinado valor que, apurou o JN, pode aumentar se, por exemplo, o jogador representar a seleção nacional ou até se for campeão. Em casos raros, o futebolista pode receber um prémio de rendimento com remuneração monetária.
O agenciamento e os patrocínios são algo familiar para estes jovens. "São situações normais e não é por isso que vão deixar de trabalhar. Sabem que sem dedicação dificlmente vão triunfar no futebol", disse João Plantier, antigo treinador da academia do Sporting, ao JN.
Marcas estão de olho no futuro
Expectativa e esperança no talento. É esta a filosofia das grandes marcas desportivas na altura de patrocinar um jovem futebolista. O plano passa por apostar em jogadores em idades muito precoces, que já sejam promessas, de forma a colherem os frutos do investimento mais tarde. Esta estratégia tem um custo financeiro menor, quando comparado em fazer um contrato com um atleta já consolidado.
"É tudo menos um trabalho aleatório. As marcas têm equipas profissionais para determinar os jogadores que vão apostar", explicou o especialista em marketing Daniel Sá, ao JN. Geralmente, o critério de seleção destas empresas passa por três aspetos: o desportivo, onde há uma avaliação do potencial do atleta; a visibilidade, sobretudo no trabalho feito nas redes sociais; e a personalidade, que tem de ir ao encontro dos atributos da marca.
"As pessoas associam o jogador à imagem que a marca representa, então é normal que estas se queiram associar a atletas que tenham atitude e espírito de conquista", referiu o diretor do IPAM. Para o futebolista, ter um contrato de patrocínio numa idade tão jovem cria um "sentimento de satisfação pessoal" e dá uma "injeção de confiança", tendo em conta que é uma forma de "validar o potencial" do jogador. "Com a visibilidade que estes jovens começam a ter nas redes sociais, acabam por se tornar micro-influenciadores e o mundo vive destas pequenas referências, não são apenas os jogadores mais famosos que vendem os produtos das grandes marcas", disse Daniel Sá.
Caso de Neymar abriu as portas a Felicitas Flores
Em 2005 Neymar entrou para a história do futebol, muito antes de brilhar nos grandes palcos europeus. O brasileiro superou o registo de Messi, que aos 14 anos se tornou parceiro da Adidas. Com apenas 13 anos de idade, assinou um contrato de patrocínio com a Nike, fruto do talento que já demonstrava dentro do campo, que se viria a confirmar poucos anos depois, tendo-se estreado na equipa principal do Santos com 17 anos.
Esta aposta da Nike foi histórica, visto que nunca um jogador tão jovem se tinha tornado patrocinado por uma grande marca desportiva. Este "tiro no escuro" revelou-se acertado, tendo em conta que Neymar se tornou um dos melhores jogadores do Mundo e um dos mais famosos do planeta, com centenas de milhões de seguidores nas redes sociais.
O contrato abriu portas a outros nomes, como foi o exemplo de Rodrygo. Em 2012, com apenas 11 anos de idade, assinou com a Nike, superando Neymar como o jogador mais jovem de sempre a ser patrocinado. Também no Santos, o talento de Rodrygo fez com que a marca apostasse no brasileiro, que viria a juntar-se ao Real Madrid em 2019, com 18 anos.
A vontade da Nike em aliar-se a jogadores cada vez mais jovens culminou em setembro, quando assinou um vínculo com Felicitas Flores, de apenas oito anos. A jovem jogadora argentina compete nos escalões de formação do Estudiantes La Plata e tornou-se, a par de Kauan Basile, na futebolista mais jovem a ter um contrato de patrocínio. Apesar da idade bastante prematura, não escondeu o orgulho na parceria. "A assinar contrato de três anos com a Nike", escreveu no Instagram, acrescentando que "o mais bonito é que está escrito "jogadora de futebol". Obrigada a todos os que apoiam o meu sonho".
