
Morita, médio japonês do Sporting
PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP
Portugal é o segundo país dos grandes campeonatos com mais jogadores (12) nascidos no Japão.
Kasu Miura chegou à Oliveirense no mercado de inverno e veio acentuar uma tendência que se tem verificado no futebol português, que passa por uma aposta cada vez mais consistente em jogadores japoneses. Mais do que uma moda, no caso de Miura, de 55 anos, será até mais uma aposta de marketing do emblema da Liga 2, cuja SAD é detida a 70% por Akihiro Kin, dono da nuts&about. O certo é que entre a Liga e a Liga 2 contam-se uma dúzia de japoneses (9+3), muitos deles internacionais, que fazem do campeonato luso o segundo com mais jogadores nipónicos, comparando com as cinco principais ligas da Europa, mais a neerlandesa, à nossa frente no "ranking" da UEFA.
A explicação para o fenómeno passa por aproveitar aquilo que Diogo Boa Alma, diretor desportivo do Casa Pia, chamou um "nicho de mercado", que encaixa como uma luva no futebol português. "Os jogadores japoneses, com a ambição de virem jogar para a Europa, abdicam muitas vezes de ganhar mais dinheiro só para vir para cá. Isso torna jogadores de nível internacional mais acessíveis, aliando qualidade e mentalidade trabalhadoras à realidade do futebol português, menos endinheirado", explicou, ao JN.
Depois, é a maneira de estar do próprio atleta japonês que seduz. "O Rúben Amorim ainda há pouco tempo elogiou Morita pela enorme capacidade de trabalho que tem", fez notar Boa Alma, convencido que depois de se experimentar trabalhar com um jogador japonês, os clubes vão querer mais. "Durante o mercado chegamos a ter propostas da Alemanha pelo Soma, internacional japonês do Casa Pia, mas acabou por continuar, porque o agente quer abrir o nicho de mercado em Portugal", acrescentou, ele que trouxe japoneses para o Santa Clara, antes de abrir as portas a mais dois no Casa Pia.
Em Portimão, o guarda-redes japonês Nakamura é uma das estrelas da equipa principal, mas os algarvios contam com mais dois nipónicos no plantel sub-23. O clube tem vindo a tirar partido dos canais privilegiados que mantém com aquele mercado asiático por força do empresário Theodoro Fonseca, acionista da SAD. Da mesma forma, no Santa Clara, Tagawa foi um ativo que transitou da SAD anterior para os novos proprietários, mas depois dele chegou Kento, internacional pelo Japão, que os novos investidores esperam rentabilizar a prazo, à imagem daquilo que aconteceu com Morita.
À margem da transferência, outro aspeto cada vez mais importante é a exposição e os seguidores que os jogadores trazem com eles e que ajuda a vender a imagem do clube em outros mercados que começam a abrir-se para Portugal, que se transforma assim numa porta de acesso privilegiada ao futebol europeu para os japoneses.
Com um investidor japonês não é de admirar que a Oliveirense tenha avançado para uma réplica do seu site oficial em japonês. Quem tiver começado a seguir o emblema da Liga 2 na terra do sol nascente pode fazê-lo sem problemas. A comunicação do clube encarrega-se de elaborar as notícias, que depois são traduzidas para japonês. A recente chegada de Kazu Miura, jogador mais velho do Mundo (55 anos), já se fez notar nas redes sociais, embora sem números oficiais que possam dar uma ideia daquilo que mudou com um reforço de inverno verdadeiramente inesperado.
Os 12 japoneses a jogar em Portugal:
Liga 1: Morita (Sporting), Yuki Soma e Kuni (Casa Pia), Kyosuke Tagawa e Kento Misao (Santa Clara), Masa (Boavista), Fujimoto (Gil Vicente), Ryoya Ogawa (V. Guimarães), Nakamura (Portimonense);
Liga 2: Miura e Randy Obi (Oliveirense) e Leo Kokubo (Benfica B)
Ricardo Soares: "Cumprem escrupulosamente"
Ricardo Soares é um dos treinadores portugueses que tem trabalhado com jogadores japoneses, no caso prático, treinou Fujimoto no Gil Vicente, antes de sair para os egípcios do Al-Ahly e as impressões não podiam ser melhores. O treinador fala de um jogador com um comportamento exemplar e de "um filho que qualquer pai gostaria de ter!" tal o impacto que o japonês teve. "É muito educado, não digo exageradamente educado, porque acho que exageradamente educado nunca ninguém é e nós temos de ser educados. Mas ele é muito humilde, muito educado e sabe estar. Realmente é fascinante e diferente, talvez seja da cultura japonesa", começou por descrever.
Em termos de volume de trabalho a impressão de Ricardo Soares coincide com a descrição de Diogo Boa Alma, diretor desportivo do Casa Pia: "Quando toca a trabalhar e a cumprir regras eles cumprem escrupulosamente tudo aquilo que é determinado pelo treinador. Os japoneses estão superdesenvolvidos naquilo que são as capacidades mentais, talvez derivado da cultura deles. Em termos profissionais, o comportamento dele também era exemplar, elevado um bocadinho ao extremo. Aí acredito que seja claramente da cultura e da educação. Têm uma forma muito especial de ouvir, por exemplo, de baixar a cabeça e não responder, nem erguer a voz".
Um dia, Ricardo Soares conta que estava a elogiar Fujimoto, gesticulando e em voz alta, situação que o jogador interpretou como uma chamada de atenção, "ergueu as mãos como quem reza a pedir desculpa", só com a explicação em inglês do fisiologista, entendeu que estava a ser elogiado e sorriu. "É o problema da linguagem gestual que é interpretada de uma maneira diferente conforme somos da Europa ou da Ásia, neste caso", rematou o treinador, que olha para os jogadores nipónicos como grandes profissionais.
Japoneses nas principais Ligas
ALEMANHA
Bundesliga 10
Bundesliga 2 6
PORTUGAL
Liga 9
Liga 2 3
FRANÇA
Ligue 1 5
Países Baixos
Eredivisie 4
Jupiler League 0
ESPANHA
La Liga 1
La Liga 2 2
INGLATERRA
Premier League 2
Championship 1
Itália
Serie A 0
Serie B 0
