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Barcelona em risco de falência

Barcelona em risco de falência

"Més que un club", o maior símbolo identitário da Catalunha atravessa os piores tempos, mergulhado em equívocos, dívidas e dúvidas. Os próximos dias serão determinantes para a nação "culé".

Seis jogos, oito pontos, 12.º lugar na liga espanhola. Uma entrada caótica em 2020-21, com a qual ninguém verdadeiramente se espanta, tal é o plano inclinado de decadência do Barcelona nos últimos tempos. Fosse só a falência desportiva de um emblema histórico, espelhada na versão mais terrena de Lionel Messi - 0,37 golos por jogo, contra os 1,14 ainda há dois anos -, o eclipse podia ser parcial e passageiro. Mas não é. É muito pior: o grande clube catalão está com a corda na garganta, numa crise sem igual em 121 anos de vida, à beira da liquidação judicial, ao ponto de estar a negociar com os jogadores um corte salarial de 30%, para poupar 190 milhões de euros e evitar, já em janeiro, um concurso de credores e um processo de insolvência para execução das dívidas, que ascendem a 800 milhões de euros. Culpados: a gestão errática da última década e a pandemia de covid-19, que tem costas largas.

Quando, na semana passada, Josep Maria Bartomeu e todos os restantes órgãos sociais apresentaram a demissão, a esmagadora maioria dos sócios do Barcelona aplaudiu o final de seis anos de uma gestão julgada como a mais penosa da história do clube. Sobraram imediatamente as contas: um dívida colossal, com tendência para aumentar a galope, dada a quebra de todo o género de receitas, perdidas desde março, por causa da pandemia; e o associado risco de insolvência num par de meses, se a nova Junta de Gestão, que terá de organizar eleições até janeiro, não cortar na massa salarial do plantel (636 milhões anuais).

O prazo para a conclusão das negociações entre o clube e os jogadores ter-se-ia esgotado na quinta-feira, sem qualquer acordo à vista, se as partes não tivessem decidido prolongar as conversações até quarta-feira da semana que vem. Os jogadores são representados por cinco advogados, a que se junta outro, patrono exclusivo de Lionel Messi, o maior interessado, com salário anual de 87 milhões, ele que viu barrada a saída, no último mercado de transferências, presumivelmente para o Manchester City, que lhe oferecia um contrato ainda mais faraónico.

Nessa altura, já Bartomeu queria cortar 30% da massa salarial. Levou uma nega redonda. Os jogadores aceitaram um corte de 7,5%, a seguir a outro de 6%, na época 2018-19. Na intransigência da maioria do plantel, a solução de Bartomeu foi a libertação de alguns dos contratos mais caros. Foi assim que partiram Vidal, Rakitic e Suarez, sem qualquer outro retorno para o clube que não fosse a poupança de vencimentos leoninos. Outros, anuíram a renegociar os vínculos e Gérard Piqué até aceitou um corte de 50%, até 2,4 milhões/ano, mas com renovação até 2024. O defesa, que completa 34 anos em fevereiro, vestirá "blaugrana" até às 37 velas. Outros três, Lenglet, Ter Stegen e De Jong aceitaram baixar os ordenados em 30%.

É esta "adequação salarial" à queda de receitas que está novamente em cima da mesa. A conciliação não está fácil, até porque os jogadores não reconhecem legitimidade aos dirigentes interinos e preferem negociar com a Direção que sair das eleições de janeiro. Para isso, dispõem-se a protelar os ordenados de janeiro, fevereiro e março. No impasse, a nova Junta de Gestão poderá ser obrigada a tomar uma decisão unilateral, ipso facto, com a aplicação imediata do corte salarial. Mas isso será sempre à custa de uma inevitável batalha judicial, de consequências imprevisíveis, que nenhuma das partes quer.

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A tudo isto, o Barça soma a lenta erosão de um efetivo que já foi jovem e maravilhoso. Desfez-se o tridente Suarez-Neymar-Messi e La Pulga vai já nos 33. Também partiram Xavi, Dani Alves e Iniesta, nenhum deles com sucessor à altura. E os resultados estão à vista: ainda que tenha mantido uma cadência regular na liga espanhola, o clube da Cidade Condal não evitou o acentuado declínio nos grandes palcos da Liga dos Campeões.

Os "blaugrana" caíram nos quartos de final ante a Juventus (0-3, 0-0, em 2017), na mesma fase com a Roma (4-1, 0-3, em 2018) e depois nas meias-finais, com o Liverpool (3-0, 0-4, em 2019). E se era improvável ver o Barça de Messi dar tamanho tombo em Anfied, 2020 havia de trazer-lhe maior humilhação, que foi aquela derrota com o Bayern, por 8-2, em Lisboa, em agosto. E para completar a retirada simples e nada cerimoniosa, a Bartomeu só lhe faltava mesmo perder o clássico com o Real Madrid (1-3), em pleno Camp Nou, como sucedeu há duas semanas.

Seja como for, "Menys que un club" - como já gozam os rivais - é que o Barcelona nunca será. Desde a saída de José Luís Nuñez, em 2000, dirigir o grande emblema catalão tem sido uma atividade de risco, como bem provaram Joan Laporta, Sandro Rossel e agora Josep Maria Bartomeu, mas nem por isso deixa de haver interessados no cargo. E tanto assim que, com vista às eleições de janeiro, a Confederação de Peñas (equivalentes às casas dos grandes clubes portugueses) tem já em marcha um ciclo de conferências temáticas que mais não são do que uma espécie de primárias, a que se perfilam dezenas de pré-candidatos.

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