Euro 2020

Futebol e extremismo político de braço dado nas bancadas húngaras

Futebol e extremismo político de braço dado nas bancadas húngaras

Um grupo de adeptos húngaros que marcou presença no jogo contra Portugal é bem conhecido pelo histórico de racismo, homofobia e gestos nazis. Mais do que uma competição desportiva, os jogos do Euro 2020 em Budapeste são também uma demonstração de força do governo conservador, que aposta no futebol para consolidar o poder.

Chama-se Carpathian Brigade, define-se como um grupo "patriota de extrema-direita" e costuma organizar grandes lutas contra rivais. Tem um vasto histórico de violência (muitos membros são lutadores de artes marciais) e é conhecido por se envolver em casos de espancamentos e esfaqueamentos sempre que a sua equipa perde.

Tradicionalmente, este grupo marca presença nos estádios sempre que a Hungria joga e utiliza t-shirts pretas para se distinguir dos restantes adeptos. Frequentemente entoa cânticos racistas e antissemitas, dirigidos para as comunidades negras, ciganas e judaicas.

Os incidentes com o Carpathian Brigade são recorrentes e sempre com o mesmo teor racista, neonazi e homofóbico. O mais recente foi mesmo no jogo contra Portugal. Segundo relatos da imprensa, uma grande parte dos adeptos húngaros cantaram "Cristiano homossexual" repetidamente durante os festejos do português, no mesmo dia em que a Hungria aprovou uma lei que proíbe a "promoção" da homossexualidade a menores de 18 anos no país.

No amigável entre a Hungria e a Irlanda, no início de junho, os adeptos húngaros assobiaram os jogadores irlandeses por se ajoelharem, num gesto de apoio ao movimento Black Lives Matter. Esta atitude não foi apreciada por alguns jogadores da Hungria, que inclusive apontaram para o emblema de "Respeito" da UEFA na manga do equipamento.

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Em março, depois de um encontro no Euro sub-21, a Federação Romena de Futebol denunciou à UEFA casos de insultos racistas dirigidos aos jogadores romenos por parte de adeptos húngaros. Noutra ocasião, em setembro de 2019, a seleção chegou a ficar impedida de jogar com público no estádio, mas a pandemia veio alterar isso. A Reuters revelou que a Hungria e a Eslováquia iriam disputar os jogos de qualificação para o Euro 2020 à porta fechada, depois de comportamentos racistas e confrontos entre adeptos e seguranças. Apesar de não haver provas de que foram os Capathian Brigade os envolvidos em todos estes incidentes, não será difícil imaginar que estes tenham tido algum tipo de envolvimento.

No Euro 2016, membros do Carpathian Brigade foram acusados de fazerem sinais nazis durante o encontro contra a Islândia. Uma fonte da polícia disse ao "Mail Online" que o grupo de adeptos utilizava uma t-shirt preta, imagem de marca do grupo de extrema-direita.

A relação entre futebol e política não é exclusiva dos adeptos húngaros, já que o primeiro-ministro Viktor Orbán usa o desporto como forma de afirmação do seu poder. Orbán é um conservador considerado por muitos como de extrema-direita e faz frequentemente ataques à comunidade LGBTQ+ e discursos contra a emigração, associando-a, por exemplo, ao terrorismo e delinquência.

Investiu desde 2010 cerca de dois mil milhões de euros no desenvolvimento do futebol na Hungria. A maior parte deste valor foi direcionado para a construção de estádios, com destaque para o Puskas Arena, estádio nacional da Hungria. Com as próximas eleições na mira, a realização de jogos do Euro 2020 na Hungria pode ser visto como um passo importante para a possível vitória do atual Primeiro Ministro.

Este investimento trouxe algum resultado desportivo, mas talvez não o esperado por Orbán. O futebol húngaro evoluiu, mas "as melhorias são algo circunstancial", como refere o "The Guardian". Clubes como o Felcsut receberam grandes quantias de dinheiro do Estado. Este volume de investimento será difícil de manter durante muitos mais anos e não parece estar a conseguir consolidar um projeto a longo prazo.

Em 2018 a Hungria perdeu contra a Andorra, Cazaquistão e Luxemburgo e não se qualificou para o Mundial (não participa nesta competição desde 1986). Desde 2010, clubes húngaros competiram quatro vezes na Liga Europa e uma na Liga dos Campeões. O futebol jovem não viu uma evolução significativa nestes últimos anos. A Hungria perdeu todos os jogos do recente Euro sub-21 e tem apenas dois jogadores com menos de 22 anos no plantel do Euro 2020. A maior esperança para o país, neste momento, é Dominik Szoboszlai, jogador do Leipzig, que já demonstra uma qualidade muito acima da média para um jovem de 20 anos. Falhou a presença no euro por lesão.

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