Triangle Trail Adventure

Qual é a sua definição de paraíso?

Qual é a sua definição de paraíso?

Quanto tempo consegue manter a boca aberta? Qual é a sua capacidade máxima em apneia? Qual a sua definição de paraíso? Quantas vezes lhe aconteceu parar para admirar o que o rodeia, espantado e surpreendido? Três dias de deslumbramento, competição, superação e resiliência, sempre rodeado de todos os que fazem parte desta que é a prova mais bonita de Portugal - atletas e elementos da organização, a que se juntam todos os dias os mestres de cerimónia locais.

Todas as ilhas do Arquipélago dos Açores, sem exceção, são de origem vulcânica. A sua formação, que se iniciou há mais de oito milhões de anos, tem origem no facto de estar no vértice de três placas tectónicas, a junção tripla dos Açores: Norte Americana, Euro Asiática e Africana.

Figuradas eventualmente por um arquiteto paisagístico, um pintor e um designer de interiores, criaram ali, a meio caminho entre a Europa e a América, um local de repouso digno dos deuses. São nove jardins idílicos, plantados no imenso e rico oceano, resort de luxo de milhares de espécies - baleias, atuns, neros, tartarugas, golfinhos, e tantas e tantas outras que habitam os seus ricos mares, manancial de abundância à mesa, fazendo juntar aos especialistas na arrumação do espaço natural um cozinheiro com infinitas estrelas de uma famosa marca de pneus.

Arrumadinhas em grupos - Oriental, Central e Ocidental -, são cada uma delas especiais e superiores destinos para quem prefere a natureza, a paz, a simbiose com a pureza da criação. Não há duas iguais, não são sequer parecidas, são obras únicas da natureza, onde chegamos e nos espantamos, ficamos imediatamente rendidos e saímos com a dor de quem abandona uma paixão. Um poema.

Buscámos no mundo / Mar e maravilhas / Deslumbradamente / Surgiram nove ilhas (1)

O arquipélago tem uma extensão semelhante à distância máxima do continente português; de Santa Maria - a primeira a ser formada e única onde se podem encontrar fósseis, já que outrora esteve submersa - até à mais pequena - Corvo, destino único para os amantes de observação de aves, distam os mesmos (arredondados) 600 km que separam Caminha de Sagres ou Bragança de Vila Real de Santo António.

No meio está..., o Triângulo. Formado pelas ilhas do Faial, Pico e São Jorge, é palco da prova que nos levou até aos Açores.

A Ilha do Pico, a mais nova ilha a ser formada, com cerca de 300 mil anos, é a base do primeiro dia. A chamada ilha cinzenta, devido às erupções vulcânicas que deram origem a extensos campos de lava negra, é também a segunda maior do arquipélago. O infinito cone vulcânico, a montanha do Pico, a mais alta de Portugal com 2351 metros de altitude, é um vulcão ainda ativo.

Alvo das objetivas dos modernos smartphones dos turistas na Marina da Horta, teria de ser toda percorrida desde a base ao topo no primeiro dos três desafios propostos. Não fora as más condições meteorológicas - chuva abundante com toque de agulhas trazidas pelo vento e o traiçoeiro nevoeiro -, e teríamos admirado no Piquinho todo o horizonte que a vista dali alcança. Ficámos pelos 25 km da etapa, na Casa da Montanha, ponto de partida obrigatório para quem lá quer subir, entre chá quente e massagens retemperadoras em amena cavaqueira.

Estas provas por etapas têm o condão de criar laços entre os participantes. Dias consecutivos a ver as mesmas caras, refeições em grupo e viagens de barco todas as manhãs rumo à partida de cada etapa.

A primeira entre o Faial e o Pico é uma espécie de "ambientação". São pouco mais de 30 minutos divertidos no curto canal de pouco mais de oito quilómetros. A segunda, de mais de 1h40 com destino a S. Jorge, é um desafio aos equilibristas. A curta variação entre o sentimento de diversão pelo ondular nas bravas vagas atlânticas e o enjoo fez, neste dia de mar agitado, com que rapidamente se começassem a contar as viagens dos marinheiros a acudir aos passageiros prestes a expulsar o pequeno-almoço.

O truque não é disfarçar o enjoo depois de ele aparecer, esse não funciona; o ideal para os estômagos mais fracos é tomar um comprimido para evitar mau estar e de preferência não se preocupar em tomar o pequeno-almoço, já que, prevenidos pela experiência, os organizadores providenciam um no local de partida. Ficam, no entanto, as memórias das fartas gargalhadas dos bafejados pela natureza com vísceras resistentes, em contraponto com os agoniados, que impotentes contra a natureza só acalmavam depois de esvaziarem os depósitos.

As mais de 70 fajãs de S. Jorge deviam ser visitadas pelo menos uma vez na vida por todos os portugueses. Em S. Jorge todos nos sentimos em casa. Orgulhosamente num recanto embelezado da nossa casa.
A ilha que tem o nome do Santo que matou um dragão, adotou também morfologia de dragão.

«Esta ilha esguia, que parece um grande bicho à tona de água, mostra-me no focinho penedos aguçados como dentes» (2)

Comprida, eleva-se acima dos mil metros no alto da sua carapaça, e estreita-se como uma cauda afiada. Nos lados norte e sul facilmente se sobe (ou desce) umas largas centenas de metros desde (ou por entre) as fajãs - línguas de lava transformadas em terra fértil, planas e habitadas - até ao topo, por trilhos impecavelmente limpos, que variam entre o mar e a serra, e de novo do verde até mergulhar nas casas a beijar o mar.

Nas pouco mais de cinco horas que tardámos em percorrer os 30 km desta etapa com mais de 1400 metros de desnível positivo, mantivemos a boca aberta de espanto mais de 80% do tempo. Será seguramente um recorde. Como a etapa termina numa fajã (dos Cubres), depois de cinco quilómetros de ligação ondulada desde a Fajã de Santo Cristo, com uma paisagem deslumbrante por outras fajãs, podemos chamar-lhe o paraíso da Costa Norte. O mesmo quadro pintado de um e outro lado. Campos de lava transformados em infernos de trabalho dos que ali habitaram, hoje memórias de paraíso. E não estamos a exagerar.

Não encontramos melhor descrição de um paraíso que aquilo que os nossos olhos viram e somos incapazes de descrever. Subir da extensa e farta fajã dos Vimes à Serra do Topo, por uma escadaria interminável que de tão linda e arrumada é impossível cansar, é de uma beleza aterradora. Um caminho penoso e paradisíaco, antagónico de prazer. Se há lugar onde não há quem se chateie por se perder, é aquele. Os olhos turvam com o suor e brilham com a envolvente. Delícia de subida, calcorreada sob denso verde por entre troncos húmidos acastanhados e degraus de pedra brilhante.

Chovia torrencialmente e o vento soprava forte quando cruzámos o escasso dorso do alto da serra e começámos a descida para a Fajã do Santo Cristo, na costa norte da ilha. Por entre incensos, cedros e urzes, sem o cantar dos pássaros, mas com o vento a silvar, descemos por um belo trilho, aqui e ali com portas de entrada - cancelas de madeira que impedem a passagem do gado que pasta no topo, para impedir que caiam montanha abaixo. Primeiro degrau a degrau, depois trilho liso e escorregadio abaixo, soltámos-nos divertidos sem ligar à chuva temperada.

Depois, já quase a concluir os quatro quilómetros de descida, começámos por avistar uma bela queda de água, não daquelas entrançadas, mas como um longo e volumoso cabelo branco e despenteado, verde abaixo. Ao fundo, a língua de terra com uma lagoa e uma igreja que se eleva acima das poucas casas imaculadamente brancas, decoradas com pequenas janelas.

Serpentear os muros negros que separam aquelas paredes brancas de casas de bonecas em terra vulcânica é um caminho de espanto. A vontade é ficar naquela aldeia de não mais que uma dezena de casinhas por trás da imponente torre. Avançamos.

A vista enriquece e humedece a cada passo, o cansaço passara já e o eterno toma conta de nós à medida que serpenteamos mais e mais recantos verdes com deslumbrantes varandas sobre o mar, aqui e ali com mais um punhado de casas, outrora refúgios de duras vidas, hoje destino de sonho.

Em S. Jorge abrem-nos, literalmente, a porta de casa. Os banhos do final da etapa, onde todos esperam por todos na esplanada do único café, foram tomados na casa de uma das poucas famílias residentes na Fajã dos Cubres. À noite, o mesmo ritual de grupo - jantar e risos cheios de saudade do que vimos por ali. Havia mais um dia, e que dia.

A ilha do Faial, uma das ilhas do grupo Central do arquipélago, foi palco da mais recente grande erupção do arquipélago, em 1957. A crise que durou 12 dias, em que foram sentidos mais de 200 abalos de terra devido à erupção do Vulcão dos Capelinhos, deu origem ao território "caçula" europeu e ponto mais ocidental da Europa enquanto território geológico. Sobra já pouco terreno do acrescentado à ilha, mas é ainda um espaço de estudo e admiração dos caprichos da natureza, que desde a erupção do Cabeço do Fogo, em 1672, foi alterando os costumes e morfologia daquela imensa Península.

Depois de uma calma viagem de 1h40 das Velas à Horta, e mais 30 curtos minutos até ao Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, novo pequeno almoço. O sol já alto das 11 horas queimava e fazia adivinhar o que sofreríamos até passar todos os nove vulcões até à enorme caldeira central, que perfaz a soma do nome deste belíssimo e duro percurso - Dez Vulcões. Está integralmente marcado e passa por toda a história do alinhamento fissural da Península do Capelo.

Duro logo desde o início, é mais habitual ser percorrido no sentido contrário, começando nos mais de 1000 metros da caldeira, miradouro de todo o grupo central em dias de céu limpo, no horizonte, e do seu interior, umas centenas de metros abatidas por sucessivos acontecimentos sísmicos. São oito quilómetros de perímetro que contornamos admirando todo um território heterogéneo e rico.

Até lá chegar subimos vulcões, corremos por densas florestas e por uma longa levada (mais de oito quilómetros) adornada por pontes pedonais, bicas de água cristalina, o silêncio polvilhado pelo chilrear dos pássaros e as longas tranças verdes das altas e variadas espécies de árvores.

A descida para a Horta é a diversão após a visita aos idílicos jardins que a lava construiu. Uma última subida antes da última vertigem de final de tarde outonal sobre a enorme baía salpicada pelos iates que ali atracam em elevado número, é um até já aos Açores.

O Faial oscila entre o seu rebuliço geológico e a calma das suas praias e gentes, e principalmente da baía do Porto Pim e da Horta. Outrora refúgio de armadas reais, desde há séculos ponto fulcral nas ligações entre a Europa e o "Novo Mundo" - foi na Horta que George Washington colocou o primeiro representante diplomático externo dos EUA, John Street, em 1795, tendo sido a primeira sede consular da sua história -, foi na baía do Faial que aterrou o primeiro hidroavião transatlântico e era por aqui que as frotas baleeiras americanas abasteciam, dando início à longa tradição de caça à baleia açoriana. Correndo a ilha bebemos toda a sua longa e rica história.

Sozinhos fazemos um passeio guiado por três idílicas ilhas. Integrados num grupo que nos enriquece ainda mais toda a experiência, juntamos a tudo isto as gentes, as receções e os adeuses de cada um dos destinos que nos assolam os sonos dos dias seguintes. É impossível não querer voltar.

Os Açores são o poema. O Triangle Trail Adventure o romance inspirado no poema.

Poema onde está / A palavra pura / De um povo cindido / Por tanta aventura // Poema onde está / A palavra extrema / Que une e reconhece / Pois só no poema / Um povo amanhece

(1) Sophia de Mello Breyner, in O Nome das Coisas, 1977

(2) Raúl Brandão, in As Ilhas Desconhecidas, 1926

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